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Ceará em cena

Natécia pontes: entre o riso e a desordem

A escritora cearense tece memórias e afetos com humor e desconforto em uma literatura sagaz, que tenta compreender a vida, mesmo quando ela insiste em escapar
Imagens: Renato Parada / Arquivo pessoal
Tempo de leitura: 6 minutos
Natércia Pontes ri do mundo antes de tentar desvendá-lo. Cearense de olhar e humor afiado e imaginação povoada por personagens femininas “imperfeitas”, a escritora parece habitar um território onde dor e ironia caminham lado a lado.

Onde a literatura funciona menos como invenção e mais como tentativa de compreender a vida, seus excessos, perdas e ambiguidades.

Nascida e criada em Fortaleza, a escritora se define como “um ser híbrido” e carrega também marcas dos muitos lugares por onde passou (ela estudou Radialismo no Rio de Janeiro, morou em diferentes cidades e hoje vive em São Paulo).

Ainda assim, quando olha com mais calma, percebe que a força da origem continua ali: no jeito de falar, no “uso doméstico e carinhoso do imperativo”, na forma crua e exata de enxergar os acontecimentos.

“Nosso olhar é como um olhar de indígena, destemido, ele rastreia o objeto observado de cima a baixo”, diz.

E essa é uma imagem precisa para entender sua literatura: Natércia observa sem pressa, sem desviar, sem suavizar. 
 

 
Não por acaso, o humor ocupa um lugar central em sua escrita. Quando perguntada se ele é uma forma de sobrevivência, a resposta vem rápida: “talvez a única”.

“Com humor você ganha superpoderes para enfrentar qualquer dificuldade”, completa.

Ela sabe que a dor existe, mas que podemos olhar por uma outra perspectiva. “O cearense sabe fazer isso muito bem. Tudo pode ser engraçado. Quer coisa mais engraçada que um nariz, um pé, uma orelha?” Esse riso, porém, nunca serve para afastar a realidade. Em Natércia, ele costuma andar de mãos dadas com o desconforto.

Desde Az mulerez, primeiro livro publicado de forma independente, até Vida doçura, romance lançado este ano, Natércia vem construindo uma obra muito particular dentro da literatura contemporânea brasileira.

Em 2012, ganhou projeção nacional com Copacabana dreams, coletânea de contos finalista do Prêmio Jabuti, onde já apareciam mulheres contraditórias, humor ácido e uma narrativa atenta às zonas menos confortáveis da existência.

Depois vieram Os tais caquinhos, primeiro romance, talvez o mais autobiográfico dos seus livros, e, mais recentemente, Vida doçura, consolidando um universo literário muito próprio: íntimo, estranho, às vezes engraçado, às vezes dolorido.

Suas personagens dificilmente buscam agradar alguém. São contraditórias, difíceis, mas profundamente humanas. E isso é deliberado.

“Não acredito em maniqueísmo na vida e sobretudo na literatura”, afirma. “A gente mente, a gente finge, a gente pragueja. Ao mesmo tempo a gente ama, a gente acolhe, a gente cuida.” É justamente nessa “área cinza entre o bom e o mau”, como ela define, que elas habitam.

A mesma complexidade está na sua relação com a autobiografia. Embora diga que tem "muita, mas muita invenção” nos seus livros, ela assume que suas experiências pessoais atravessam o que escreve.

O começo da vida, conta, “não foi nada fácil”, e narrar essas vivências se tornou uma maneira de compreendê-las. “Eu adoro passear nesse limite, na corda bamba dessa linha tênue entre realidade e ficção”.

Transformar experiências difíceis em literatura, para ela, é mais sobre organização do que exposição. “É a única forma que eu consigo me organizar e organizar a trajetória da minha vida.” O preço, admite com graça, às vezes vem em casa: “ninguém na minha família me lê, risos.”. 

E as relações familiares seguem impondo novas camadas à escritora, agora também através da família que Natércia formou.

Entre Copacabana dreams e Vida doçura ela virou mãe e, como resume, “virar mãe é morrer e renascer”. Suas filhas têm oito anos, mas ela diz ainda estar tentando entender quem é agora.

Talvez isso também explique uma escrita cada vez mais interessada em vínculos, fragilidades e afetos. Hoje, além dos livros, ela também escreve a Coluna Torta, na revista Cult, espaço onde segue exercitando um olhar que dá zoom nas tensões e relações do mundo contemporâneo.
 
“Natércia no lançamento de um dos seus primeiros projetos.”

O mundo contemporâneo, aliás, é o que anda lhe desorganizando atualmente: “a crise climática, a ascensão da extrema-direita, as guerras, as crianças mortas e o feminicídio brasileiro, diário e atroz.".

Talvez por isso, em Vida doçura, apareça uma personagem atravessada pela solidão, pela internet e pela sensação de conexões cada vez mais frágeis. “Estamos muito mais solitários e cheios de certezas”, diz.

“Tudo me parece muito estéril e superficial.”

Ainda assim, em meio a tantas inquietações, existe algo que Natércia nunca consegue deixar de escrever sobre: “O amor.

A resposta chega simples, quase inesperada depois de tantas camadas complexas. Mas talvez esteja aí uma das chaves da sua escrita: uma conexão profunda com aquilo que ainda resiste e insiste em sobreviver, apesar de tudo.

No fim, Natércia Pontes parece escrever justamente nesse intervalo: entre o riso e a ferida, entre o Ceará e o mundo, entre a memória e a invenção, entre a desordem e a tentativa de dar forma a ela.

Não exatamente para encontrar respostas definitivas, mas para reconhecer quais ainda são possíveis.

Para organizar, pela ficção, aquilo que a vida foi deixando em aberto. Livro após livro, Natércia segue pescando palavras no ar, implicando com o mundo e escrevendo sempre acompanhada pela pergunta que lhe fascina: “o que é a vida?”, mesmo sabendo que essa resposta pode não caber em um livro, ou em vários.

Acompanhe a autora: @cindylante 
Victória Costa
Cearense de Aracati, Victória Costa se formou em jornalismo, fez moda, estagiou em jornal, foi produtora de TV e editora-chefe de revista em Fortaleza – até se mudar pra São Paulo há oito anos e por lá descobrir o branding. Hoje, desenvolve e lidera projetos de marca, da plataforma à comunicação, da investigação à criação. Na Bon Voyage, ela embarcou numa viagem nostálgica, relembrando a adrenalina e o prazer de fazer um bom impresso.
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