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Marinando

O São João não vive só de milho!

Imagens: Divulgação
Tempo de leitura: 3 minutos
Se hoje nos vestimos com roupas coloridas, decoramos os espaços com bandeirinhas e balões de papel, acendemos fogueiras e dançamos quadrilha, é porque um dia povos originários fizeram do milho (Zea mays L.) um dos maiores símbolos das Américas.

Mascomo assim a origem da maior festa do Nordeste, depois do Carnaval, pode estarligada à preservação de um alimento? Calma, vou explicar.

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, povos indígenas já cultivavam ereverenciavam o milho como base da alimentação e da vida comunitária.

Seu cultivo carregava conhecimento sobre os ciclos da natureza, técnicas de plantio e uma profunda relação espiritual com a terra. Não por acaso, até hoje o milho atravessa séculos de tradição e permanece no centro das celebrações juninas como símbolo de fartura.

As festas de São João acontecem justamente no período em que os campos começam a devolver parte do que foi plantado.

Junho é tempo de colher milho, feijão verde, amendoim, mandioca e batata-doce. É quando a mesa se enche depois de meses de espera, cuidado e incerteza.

Comer nesse período nunca foi apenas sobrevivência: é também agradecer, celebrar e renovar esperanças.

Talvez por isso as comidas juninas despertem tanta comoção. A pamonha enrolada na palha, o mungunzá, a canjica, o bolo de milho, o pé de moleque e os licores caseiros contam histórias sobre plantio, colheita e partilha.

Com o passar do tempo, as festas ligadas às colheitas se misturaram às tradições católicastrazidas pelos portugueses. Os festejos dedicados a São João, Santo Antônio e São Pedro incorporaram elementos indígenas, africanos e europeus, formando o sincretismo que hoje define o São João brasileiro.

A fogueira virou símbolo de encontro e renovação, e a dança coletiva, um ritual de comunidade. Anarriê!

Mas, existe também uma necessidade quase urgente de festejar. Depois do trabalho duro no campo, das secas e das incertezas, comer bem, beber junto e atravessar a noite em música transforma a resistência coletiva em uma das festas mais animadas do ano.

O São João, portanto, não é apenas a festa do milho. É a festa da colheita, da
abundância possível e da esperança de que a terra volte a florescer.
Enquanto uma parte dos grãos alimenta a celebração, a outra é guardada para virar semente.

E talvez esteja justamente aí a beleza dessa tradição: festejar enquanto se prepara o recomeço.
 
Dica BV: Onde comer comida regional pelo Nordeste?

1. Campina Grande – Paraíba
Manoel da Carne de Sol
@manoeldacarnedesol

2. Juazeiro do Norte – Ceará
Coisas do Sertão
@sertaocoisas

3. Recife – Pernambuco
Parraxaxá – Cozinha Típica Nordestina
@parraxaxa
Marina Araujo
Cozinheira, pesquisadora e cultivadora de certa intimidade com as palavras, Marina Araújo é Diretora do Mercado Alimenta-CE e, aqui na BV, assina a coluna Marinando. @marinaaraujo
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