Solange Almeida de corpo, alma e coração no São João
Tem som de sanfona e lembrança das festas juninas de Alagoinhas. A felicidade era estar ali, na calçada, perto da fogueira, usando as roupas de chita que minha mãe mandava fazer para mim. Acho que é por isso que junho me emociona tanto.
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Junho mexe diferente com Solange Almeida. Mais do que agenda cheia, maratona de shows ou rotina exaustiva, o mês funciona como reencontro: com a memória, com as raízes e com uma parte muito íntima de si mesma.
“No São João, eu me sinto pertencendo à minha essência”, resume. Entre palcos, figurinos, multidões e quilômetros de estrada, existe uma Solange ainda profundamente conectada à menina nordestina criada entre fogueira, sanfona, família e afeto.
Essa relação com o São João também ganhou forma no Sol João, projeto criado durante a pandemia como uma maneira de manter viva a essência das festas juninas e da identidade nordestina.
Em junho, ele ganha ainda mais força, quase como extensão natural desse pertencimento.
Talvez seja justamente essa conexão com a própria essência que também explique a mulher que Solange se tornou.“O Nordeste merece ser celebrado sem perder a sua essência”, defende. E é esse sentimento que faz Solange subir ao palco sabendo que representa algo maior: “Estou representando muito mais do que a mim mesma.”
Depois de décadas de carreira, ela parece viver um momento mais seguro da própria identidade, menos movido pela necessidade de provar força e mais pela tranquilidade de quem já entendeu o próprio valor.
“Não preciso competir nem convencer ninguém da minha história, a minha trajetória fala por mim”, diz.
Com o tempo, aprendeu a trocar urgência por paz, ruído por intuição e aprovação por segurança.
“A beleza mais forte que eu carrego é a segurança de saber o meu próprio valor.”

“Existe a vontade de proteger, porque eu conheço as dores e os desafios. Mas também existe o entendimento de que cada pessoa precisa viver a própria experiência e descobrir a sua própria voz.”
Entre memória, pertencimento, maternidade e São João, Solange conversa com a Bon Voyage sobre raízes, carreira e tudo aquilo que a conecta, de corpo, alma e coração, ao Nordeste.
Solange: Existe, sim, uma Solange diferente. O São João desperta uma Solange muito emocional, muito conectada com minhas raízes.
Junho mexe comigo de um jeito diferente porque remete ao meu passado, tem cheiro de infância, tem cheiro de família, é uma memória afetiva muito grande.
Como artista, é a época do ano em que mais me sinto pertencendo à minha essência. E, como nordestina, é impossível não sentir orgulho dessa cultura tão forte que pulsa no peito. Eu gosto de me caracterizar, de viver isso intensamente. É uma época em que me entrego de corpo e alma.Solange: Junho hoje é intensidade pura. É um misto de exaustão física com emoção o tempo inteiro, porque a gente faz no mínimo um, no máximo três shows por semana, já cheguei a fazer quatro.
O corpo sente, a cabeça acelera, mas o coração fica cheio de amor. Cada cidade, cada público, cada pessoa cantando junto me lembra o motivo de eu ter escolhido viver isso, de ser cantora. É cansativo, mas é um cansaço que alimenta minha alma e me impulsiona a ser melhor a cada ano.
Solange: Eu acho impossível traduzir completamente esse sentimento de pertencimento que existe no Nordeste.
O nordestino tem um poder de transformar dor em força, saudade em música e dificuldade em acolhimento. Existe uma emoção na nossa cultura que não cabe explicação. Acho que só quem vive entende. Só sabe vivendo.
Solange: Eu sinto muito amor por essa responsabilidade, porque o forró faz parte da minha identidade, da minha história e da minha relação com o Nordeste.
Existe um compromisso com essa cultura, com os artistas que vieram antes e com os que ainda virão. E eu acredito que vem uma boa safra para dar continuidade a isso tudo.Quando subo num palco, sinto que estou representando muito mais do que a mim mesma.

Solange: Eu acho que permanecer relevante hoje exige autenticidade, porque o público percebe quando existe verdade.
Claro que a gente evolui, se atualiza, experimenta coisas novas, como eu experimentei, mas sem abandonar a essência. E eu acho que é isso que permanece.Nunca tentei ser outra pessoa para acompanhar tendência.
Solange: A Solange de hoje não sente mais necessidade de provar força o tempo inteiro. Durante muitos anos, precisei mostrar que merecia estar ali, que dava conta, que era capaz de sustentar meu espaço dentro da música e da vida.
Hoje, eu entendi quem sou. Não preciso competir nem convencer ninguém da minha história - a minha trajetória fala por mim.
Como mãe, aprendi que o amor é presença de alma, mesmo quando a estrada me afasta fisicamente dos meus filhos.Existe uma liberdade que só a maturidade traz. O tempo me ensinou que ser mulher também é se permitir viver sem carregar tantas culpas.
Como profissional, entendi que disciplina e verdade valem mais do que qualquer coisa. E, como mulher, aprendi a me escolher cada vez mais.
Solange: Eu quero que eles entendam que dignidade, coragem e honestidade valem mais do que qualquer fama.
Que sucesso de verdade não é só aplauso: é caráter, respeito pelas pessoas, é não esquecer de onde se veio e nunca puxar o tapete de ninguém.
Solange: Quando as luzes se apagam, existe uma Solange ainda mais simples. Muito família, muito humana, muito amiga.
Uma mulher que também sente medo, que tem vulnerabilidades, sente saudade, insegurança, mas que nunca perdeu a fé.
No fim de tudo, eu sou alguém movida pelo amor, pela música e pela gratidão pela história que construí.

O som do Nordeste com N
QUE TAL CURTIR UM SOM ENQUANTO LÊ A MATÉRIA?
Às vésperas do São João, o maior palco da música Nordestina, fomos atrás de alguém que manja, e muito, do assunto, com de tudo o que ele abrange/mobiliza: tendência, negócio, cultura, memória.
Foi aí que encontramos o Zé Pretim - na certidão, Darlison. Uma figura interessantíssima cuja origem está nas “quebrada”, mais especificamente no bairro Pirambu, em Fortaleza, onde dançava quadrilha na rua, soltava bomba e, direto da barraca de sua saudosa madrinha, comia pratinho.
Hoje, ele orgulha, ou no mínimo surpreende, esse moleque arteiro lidando com coisas megalomaníacas, como os festejos juninos de Campina Grande e Caruaru.
Pretim, que teve ainda a graça de acompanhar o nascimento de fenômenos como ninguém mais, ninguém menos, que João Gomes, acredita que vivemos um momento de flashback do amor pelo Ceará, movimento impulsionado pelo Cine Holliúdy e por outros marcos importantes.“Não quero entrar nessa disputa de se é melhor Carnaval ou São João, mas é importante a gente dizer: Carnaval é um fenômeno de uma semana. São cinco dias versus um mês inteiro. O movimento de pessoas é muito maior, a atenção é muito maior”.
Ver protagonistas cearenses em tela grande, sem neutralizar ou se acanhar do próprio sotaque, também protagonista, fortaleceu a nossa autoestima.
Como se a gente, da última década pra cá, enfim atentasse pro fato de que, dentro desse Brasilzão com s, tem também um Nordeste com N, onde estão nove estados e 1.794 cidades, dentre as quais uma efervescente Fortaleza com F.
A mesma letra com que se escreve forró, esse estilo tão democrático e tão nosso que ele definiu como “megazord cultural” e que também foi pauta dos “bem mais que dois dedos de prosa” que você confere a seguir.

Zé Pretim: Eu não tenho como falar de mim sem falar de onde eu vim, certo? Lá do Pirambu.E, bom, eu sou designer de formação.
Fiz muita coisa, entreguei muito projeto, mas teve um momento em que fiquei meio "de saco cheio" de ficar atrás da tela.VFui do design gráfico para o visual, aplicativo, marketing digital, até que fui parar no Sua Música.
Entrei como diretor de conteúdo nessa que é uma plataforma brasileira com foco muito grande no Nordeste.
O projeto surgiu a partir de um programador forrozeiro - sim, eles existem! - que pegava as discografias lá na comunidade do Orkut e reunia tudo num site.
O site foi vendido para um grupo que o transformou no app e no negócio que é hoje. Ele nasceu do chamamento da comunidade que curte forró.
Foi a partir disso que entrei com os dois pés na música em si. Eu sempre trabalhei com projetos culturais e entretenimento, mas não com o business. Cheguei na empresa desde 2019 e prosperamos bastante.
BV: Tu acredita que existe essa música "nossa", enquanto pessoa, cidade e região, ou que as fronteiras estão mais borradas?
ZP: Eu acho "fifty-fifty" ou, traduzindo pro cearês: mêi a mêi. Apesar das fronteiras estarem borradas, ainda existe o que é do Nordeste, do Sul, do Norte. Eu faço muitas analogias com a alimentação.
Em Fortaleza, se a gente quiser, come comida tailandesa, paraense ou regional. A gente tem o acesso, mas o "sabor" é o diferencial.

Outro dia, em uma reunião de pesquisa para uma IA, eu falei: "Existem coisas no Nordeste que são míopes para quem não é daqui". Exemplifiquei com o termo "pirangueiro". No Ceará, é maloqueiro; em Pernambuco, é caloteiro; na Bahia, é mão de vaca. Com a música acontece o mesmo.
Existe a música nossa e, dentro do Nordeste, existem as microrregiões. O Arrocha, por exemplo, é um fenômeno com concentração de consumo num raio entre Salvador, Vitória e Aracajú. Ele se expande, o Sudeste escuta Nattan, mas a forma de consumo raiz é lá.
O mesmo com o Brega Funk no Recife ou o Tecnobrega no Pará. As pessoas têm acesso, mas não é o que elas consomem corriqueiramente.
O jeito que o Sudeste consome Rock é diferente de como o Nordeste consome Forró. Ainda há essa separação geográfica e de gênero.
BV: E tu acha que estamos vivendo um momento de maior autoestima? O nordestino e o cearense estão se apropriando mais do que é feito aqui, pelas pessoas daqui?

O Halder Gomes tem um papel muito grande nesse flashback do amor que a gente sente pelo Ceará e por Fortaleza. Foi a hora que a gente olhou e: "uou, isso aqui é nosso!". E o nosso é muito legal. O nosso sotaque é muito legal. A nossa estética é muito legal. O nosso forró é muito legal.
Porque o forró também, até aquele ponto ali, estava nichado só com os forrozeiros. Hoje não. Hoje, quando a gente dá uma volta em Fortaleza, você vê casas e restaurantes chiques tocando forró.Estive, recentemente, num festival que teve Gaby Amarantos, eu estava chegando e a DJ tocando Aviões Volume 3 em São Paulo, no Parque Villa-Lobos. Depois ela tocou Magníficos. Eu fiquei espantado, de um jeito bom, claro.
Eu acho que, falando de Fortaleza, para mim o marco histórico, o ponto chave, é o Cine Holliúdy. A gente está falando de quase dez anos atrás.
Existem outros marcadores em outras regiões, de outros gêneros, mas acredito que foi o momento que a gente começou a reconstruir essa autoestima e que isso reverbera hoje nesse Brasil com "S".
O forró fez isso: "a gente é muito foda no forró". O samba fez isso: "o samba é muito foda". As religiões de matrizes africanas fizeram isso. Eu acho que todo mundo está bebendo dessa parada de que o que gente faz é muito incrível, sabe? E o forró se apropria desse gênero que sempre foi muito autossuficiente, diferente de outros gêneros.A partir desse Brasil com "S", passamos a colocar Nordeste com "N", Ceará com "C", Fortaleza com "F", Recife com "R", Salvador com "S". É a gente olhando pro que é da gente e reconhecendo como algo muito foda.
Ele sobreviveu e pega esse ecossistema que volta a consumi-lo e validá-lo junto com uma indústria que se fortaleceu com essa escassez. O forró vira realmente o gênero do Brasil - nesse primeiro momento, o gênero do Nordeste.
Ele faz um movimento de contracultura, porque antes a gente achava que o sertanejo era a única música nacional, e o forró consegue engolir tudo a partir da região mais forte dele, sem a necessidade dos artistas saírem do Nordeste.
O forró já redesenhou como funcionam os negócios da música brasileira por pelo menos três vezes. Muitos artistas fizeram o movimento de vir para o Sudeste e já voltaram. O Xand Avião, por exemplo, nunca saiu de Fortaleza e é sucesso nacional.
O Wesley veio para São Paulo umas duas, três vezes, mas sempre volta. É muito louvável olhar para a estrutura de negócio desse gênero.
BV: Tu falou de bandas antigas e do Aviões Volume 3. Ao mesmo tempo que o “novo sempre vem”, existe esse fenômeno da nostalgia, né?
ZP: Exato. E o forró não passaria batido por isso. Culturalmente, estamos mais nostálgicos; vivemos um eterno TBT. Tem festa de R&B tocando só 2006, tem o resgate da MPB, muita gente curtindo músicas antigas de artistas como Gal Costa, Maria Bethânia, descobrindo gravações originais.
O próprio rap também voltando para o passado, talvez o trap é o único que continue sendo vanguarda.
O forró vira um "Megazord" cultural. Se as pessoas estão nostálgicas, vêm todos os componentes da época: a volta da seresta, do teclado, as bandas de piseiro tendo que colocar metais, zabumba e sanfona porque o público pede. Até a moda agora é vintage, usar gravata de brechó. O forró se apropria disso.
BV: Qual é o som que tu tem mais curtido atualmente?ZP: Todo mundo vai falar isso, mas eu literalmente sou a pessoa mais eclética que tu pode conhecer na tua vida.
Eu vim para cá ouvindo Nirvana, acordei ouvindo Nana Caymmi e acho que nesse momento o disco que eu estou mais ouvindo no repeat é o disco novo do Emicida, onde ele resgata a essência dele através do Racionais, das letras dos Racionais.
Mas eu já estou, inclusive saindo dessa entrevista com você aqui, para ir para a reunião de São João, então eu já estou mergulhando no São João, já estou consumindo ali meu Santanna “O Cantador”, meus Flávio José, minhas coisinhas para mergulhar nessa temática. Emicida, Racionais e Arthur Verocai são as três coisas que eu estou mais escutando esses dias.

ZP: Minha relação com o São João começa desde o dia que eu nasci, por ser cearense. Eu sou de 91, da época de quadrilha na rua.
Tinha uma avenida lá no Pirambu, ainda tem, que é a Nossa Senhora das Graças, que misturava a festa da igreja com quadrilha porque, afinal, São João é uma festa católica, é uma festa religiosa, a gente não pode esquecer disso.
Eu lembro da minha madrinha que botava banca para vender pratinho. Isso é uma memória muito afetiva.
Fico emocionado quando lembro da banquinha. Minha madrinha já faleceu, mas quando eu como um pratinho eu lembro dela, porque ela era o clássico do pratinho lá na minha favela, sentada colocando a banquinha de palha de coqueiro, bem bonitinha.
E aí eu tive essa bênção de, depois, o trabalho também promover esse encontro sob uma outra perspectiva.
Eu já tinha trabalhado com o São João antes de vir para o Sua Música, com ativação de marca, ainda como produtor. Mas, durante a pandemia, a gente desenvolveu um projeto proprietário chamado "São João de Todos" em que, em um ano, revelamos Tarcísio do Acordeon e, no outro, João Gomes.
Quando o mercado se reabriu para eventos, a gente começou a ser as transmissões oficiais. Então, a gente sempre faz transmissão de Campina Grande e de Caruaru também.
A gente costuma fazer 90 milhões de visualizações com as nossas transmissões. Campina Grande leva em média 100 mil pessoas por dia para a rua.
Caruaru tem entre 80 e 100 mil também todos os dias de festa. E hoje o negócio do forró e o negócio da música no Nordeste explodiu
Existem muitas pessoas que estão dando luz para estes festejos e dizendo: "isso aqui é muito massa e a gente precisa que vocês entendam que isso aqui é muito massa".
Hoje, quando eu transito em ambientes aqui em São Paulo, todo mundo ou já foi e conhece Campina Grande e Caruaru, ou diz assim: "todo mundo só fala nisso, eu preciso ir lá conhecer".
Estão no radar do país porque foi um movimento de contracultura mesmo.
Foi de, como diria Aviões do Forró, “se não valorizar, com certeza você vai me perder'". Então, nos autovalorizamos, nos autoprosperamos até que o Brasil em si veio olhar para o Nordeste e reconhecer.
Não quero entrar nessa disputa de se é melhor Carnaval ou São João, mas é importante a gente dizer: Carnaval é um fenômeno de uma semana. São cinco dias versus 30 dias de festejos. O movimento de pessoas é muito maior, a atenção é muito maior.É muito impactante quando você vê 100 mil pessoas num evento numa quarta-feira. Aí tu pensa: "ah, não, é porque essa quarta-feira é muito importante". Quinta está do mesmo jeito, sexta do mesmo jeito, domingo do mesmo jeito, faça chuva ou faça sol... por 30 dias.
BV: E sobre a live do João Gomes, tem algum bastidor para os nossos leitores?
ZP: Em 2020, quando vimos que não teria São João presencial, eu peguei o primeiro avião para Petrolina com uma mochila e um sonho para fazer uma live de piseiro.
No meio da transmissão, me pediram para colocar "mais um" artista. Eu estava com medo da audiência cair, mas aceitei. Chegou um cara só com a sanfona e teve que pegar músico emprestado para tocar: era o Tarcísio do Acordeon.
No ano seguinte, fizemos um concurso cultural no Twitter para descobrir uma nova voz. Um rapaz ficou em segundo lugar. Ele tinha 2.275 seguidores e esse rapaz é o João Gomes
O primeiro palco dele foi na nossa live em 2021. Às três da tarde, já tinha mil pessoas esperando no chat do YouTube gritando "Vim pelo João". Eu falei "hum, tem um negócio aí". E olha que tinha.No dia dele, tinha muitos artistas grandes e o João, um menino que tinha feito uns vídeos na internet. Ali, eu vi que ali havia um fenômeno. Tive a graça de acompanhar vários fenômenos assim, todo ano eu acompanho de perto pelo menos um.
BV: Olhando para frente, o que está no teu radar?
ZP: Este para mim vai ser um São João curioso. Como trabalho no negócio da música, tenho informações antecipadas e tem dois anos que não tem "a" música do São João.
Fica todo mundo nessa expectativa, mas não tem, porque faz dois anos que a gente está nostálgico.
O Xand Avião quebrou a banca, pegou todo mundo, como a gente diz aqui no Ceará, de "calça arriada" com o projeto Forró é Pop. No ano seguinte, o Safadão fez algo semelhante com o Bem-vindo ao meu mundo, que explodiu e pautou o São João com um sentimento nostálgico em cima de vaquejada.
Tivemos dois anos de nostalgia raiz. Agora, estou botando minhas fichas num TBT mais recente.
Ainda é resgate, o novo, na verdade, é o velho com um molhinho novo. Um sentimento de "Cantinho do Céu", de "Forró no Sítio". Tendo a achar que vai ser mais um São João nostálgico, mas de 2010 para cá.
Mapa da Mina do São João
Enquanto bandeirinhas tomam as ruas e o cheiro de milho assado anuncia a temporada, cidades inteiras se transformam para celebrar uma das festas mais queridas do Brasil.
Mas engana-se quem pensa que existe um único jeito de viver o São João.Há os gigantes, para quem quer multidão e noites sem hora para acabar.
Os tradicionais, onde a cultura popular ainda dita o ritmo. Os charmosos, perfeitos para uma escapada de fim de semana entre pousadas, comida boa e friozinho improvável. E aqueles que surpreendem justamente por ainda parecerem um segredo bem guardado.
De Campina Grande a São Luís, de Bananeiras ao Recôncavo Baiano, reunimos destinos que mostram a vastidão e a personalidade dos São João nordestinos e, de quebra, te ajudamos a descobrir qual deles combina mais com o seu jeito de viajar.
CAMPINA GRANDE (PB)
Há festas grandes - e há Campina Grande. Durante semanas, o Parque do Povo vira o coração de um São João que parece não acabar nunca: quadrilhas monumentais, ruas cenográficas, trios de forró e uma programação que se espalha madrugada adentro.
Entre os clássicos imperdíveis estão o Quadrilhódromo, os casamentos coletivos e os shows no palco principal, mas o que realmente marca a experiência é a sensação de estar no epicentro do mês de junho no Brasil. Se existe um primeiro São João para viver, provavelmente é aqui.
Quando: 3 de junho a 5 de julho de 2026
Duração: 33 dias
Não perca: Parque do Povo, Quadrilhódromo, casamentos coletivos e ilhas de forró
Já confirmado em 2026: Roberto Carlos, Marisa Monte, Henrique & Juliano, Wesley Safadão, João Gomes, Mestrinho e Jota.Pê, Solange Almeida, Xand Avião, Elba Ramalho e Flávio José.
Mais informações: @saojoaocg
BANANEIRAS (PB)
Se Campina Grande é multidão, Bananeiras é refúgio. Na serra paraibana, o friozinho inesperado, as ruas charmosas e o ritmo desacelerado transformam o São João em uma ótima desculpa para um fim de semana prolongado.
A programação costuma ocupar o centrinho da cidade com shows e forró, mas parte importante da experiência está no entorno: pousadas aconchegantes, boa gastronomia e a sensação de viver uma versão mais intimista e talvez mais romântica da temporada junina.
Quando: normalmente durante dois fins de semana de junho (programação 2026 em atualização)
Duração: cerca de 6 dias de festa
Não perca: programação no centrinho histórico, clima de serra e gastronomia local
Fique de olho: hospedagens costumam esgotar cedo, vale reservar com antecedência
Mais informações: @obomdebananeiras
CARUARU (PE)
Caruaru tem a escala dos gigantes, mas sem abrir mão das raízes. Enquanto grandes shows tomam conta do Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, a cidade espalha polos culturais, feiras, apresentações populares e muito forró por diferentes cantos: do Alto do Moura, berço do artesanato pernambucano, ao tradicional Polo do Forró.
É um destino para quem quer viver o São João em sua versão mais completa: grandioso, mas ainda profundamente conectado à cultura popular nordestina.
Quando: 30 de maio a 27 de junho de 2026
Duração: quase 1 mês de programação
Não perca: Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, Alto do Moura, São João na Roça e polos culturais espalhados pela cidade
Já confirmado em 2026: Roberto Carlos, João Gomes, Wesley Safadão, Elba Ramalho, Alok, Gusttavo Lima, Luan Santana, Xand Avião, Nattan, Solange Almeida e Limão com Mel.
Mais informações: @saojoaocaruaru.oficial
GRAVATÁ (PE)
Se a ideia é unir São João e escapada de fim de semana, Gravatá entrega um dos cenários mais gostosos do Nordeste. O clima ameno da serra, os hotéis charmosos e os cafés e restaurantes acolhedores fazem da cidade um contraponto perfeito aos arraiais de multidão.
Em junho, a programação junina toma conta do município, mas aqui o convite é outro: desacelerar, curtir o friozinho improvável do Nordeste e alternar uma noite de forró com um jantar demorado.
Quando: durante o mês de junho, com pico próximo ao feriado de São João (agenda 2026 em divulgação)
Duração: programação distribuída ao longo do mês
Não perca: polos juninos, gastronomia de inverno e hospedagens nas serras da região
Fique de olho: muitos hotéis criam programação própria durante o período junino
Mais informações: @prefeituradegravataoficial
PETROLINA (PE)
Petrolina tem um dos São Joões mais vibrantes do sertão, e talvez um dos mais subestimados também. Às margens do Rio São Francisco, o Pátio Ana das Carrancas reúne grandes shows e uma multidão que atravessa noites inteiras de festa.
Mas vale olhar além do palco: a cidade é também porta de entrada para uma região marcada pelo enoturismo e pela gastronomia sertaneja, o que faz da viagem uma combinação improvável e deliciosa entre forró, vinho e o calor do Vale do São Francisco.
Quando: 19 a 27 de junho de 2026
Duração: cerca de 10 dias de programação principal
Não perca: Pátio Ana das Carrancas e eventos paralelos ligados à cultura sertaneja
Já confirmado em 2026: Ivete Sangalo, Gusttavo Lima, Marisa Monte, João Gomes, Luan Santana, Wesley Safadão, Simone Mendes, Nattan, Xand Avião, Thiaguinho e Bruno & Marrone.
Mais informações: @saojoaodepetrolina
ARCOVERDE (PE)
Arcoverde talvez não tenha a fama dos gigantes, e isso faz parte do charme. A cidade pernambucana é conhecida por um São João profundamente conectado às tradições culturais da região, com forte presença do coco, do samba de coco e de manifestações populares que dividem espaço com a programação musical.
Diferentemente de outros destinos, aqui vale prestar atenção nos grupos locais e nos polos culturais espalhados pela cidade. É o tipo de viagem para quem gosta de entender a alma do lugar e não apenas assistir à festa.
Quando: 13 a 28 de junho de 2026
Duração: 16 dias de programação
Não perca: os polos multiculturais espalhados pela cidade, os grupos de coco e samba de coco, a tradicional Caminhada do Forró e a mistura entre artistas locais e grandes shows nacionais.
Já confirmado em 2026: Alceu Valença, Flávio José, Wesley Safadão, João Gomes, Nattan, Matheus & Kauan, Zé Vaqueiro, Priscila Senna, Iguinho & Lulinha e Vitor Fernandes.
Mais informações: @saojoaodearcoverde
MARACANAÚ (CE)
A poucos quilômetros de Fortaleza, Maracanaú transforma o São João em espetáculo. A cidade ergue um arraial imenso, com cidade cenográfica, festival de quadrilhas competitivas e uma programação intensa que costuma atravessar o mês inteiro.
Mas o diferencial não está apenas no tamanho: há algo de cinematográfico no jeito como tudo parece pensado para mergulhar o visitante no imaginário junino: bandeirinhas, comidas típicas, cenários temáticos e forró até perder a hora.
Quando: 29 de maio a 28 de junho de 2026
Duração: 30 dias
Não perca: Cidade Cenográfica, Quadrilhódromo e festivais de quadrilha junina
Já confirmado em 2026: Taty Girl, Bell Marques, Bruno & Marrone, Xand Avião, Gusttavo Lima, Simone Mendes, Alok, Nattan, Mari Fernandez, Calcinha Preta, Limão com Mel e Zé Neto & Cristiano.
Mais informações: @saojoaodemaracanau
MOSSORÓ (RN)
Mossoró vive junho em modo máximo. A programação se espalha pela cidade, entre quadrilhas, apresentações culturais e grandes encontros populares, mas o ponto alto é o famoso Pingo da Mei Dia: uma abertura gigantesca que reúne multidões em um cortejo-festa que toma as ruas em pleno dia.
Some a isso o espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró, que revive episódios históricos locais, e o resultado é um São João que mistura cultura, música e celebração popular em doses generosas.
Quando: 6 a 27 de junho de 2026
Duração: cerca de 22 dias
Não perca: Pingo da Mei Dia, espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró e Cidade Junina
Fique de olho: Bell Marques, Nattan, João Gomes, Simone Mendes, Xand Avião, Alok, Calcinha Preta, Zezé Di Camargo & Luciano, Sorriso Maroto e Claudia Leitte
Mais informações: @mossorocidadejunina
SÃO LUÍS (MA)
Quem chega esperando um São João tradicional pode se surpreender, e é justamente aí que mora o encanto de São Luís. Na capital maranhense, a festa ganha sotaque próprio ao se misturar ao universo do bumba meu boi, dos tambores, das matracas e dos arraiais espalhados pela cidade.
Vale tentar assistir às apresentações dos diferentes “sotaques” do boi, como o de orquestra e o de matraca, para entender a riqueza dessa tradição. O resultado é uma experiência profundamente cultural, vibrante e visualmente hipnotizante. Mais do que uma festa, é uma imersão numa identidade que só existe desse jeito ali.
Quando: programação junina costuma acontecer ao longo de junho, com pico entre a segunda quinzena e o Dia de São Pedro (29/06)
Duração: cerca de 1 mês
Não perca: arraiais espalhados pela cidade, apresentações dos diferentes sotaques do bumba meu boi e festejos no Centro Histórico
Já confirmado em 2026: programação com mais de 700 atrações culturais e nomes nacionais no Bumba Meu São João, incluindo Henrique & Juliano entre os primeiros artistas anunciados.
Mais informações: @saojoaoma
AMARGOSA (BA)
Há cidades que fazem festa. Amargosa cria cenário, atmosfera. No interior da Bahia, a praça principal ganha cenografia caprichada, bandeirinhas, vilarejos temáticos e um clima que transforma o centro da cidade no verdadeiro coração da celebração.
O diferencial aqui está no equilíbrio: há grandes atrações e noites animadas, mas sem perder a sensação gostosa de interior bem vivido. Vá sem pressa, parte da graça é circular pela praça, experimentar as comidas típicas e entrar no ritmo da cidade.
Quando: 19 a 24 de junho de 2026
Duração: 6 dias de festa principal
Não perca: a Praça do Bosque, coração do evento, a Vila Junina cenográfica, o Café com Forró e os shows no Palco Gonzagão
Já confirmado em 2026: João Gomes, Elba Ramalho, Tayrone, Thiago Aquino, Vitor Fernandes, Santanna – O Cantador, Del Feliz, Léo Estakazero, Chambinho do Acordeon e Fulô de Mandacaru.
Mais informações: @prefamargosa
SANTO ANTÔNIO DE JESUS (BA)
Pouca gente de fora conhece a força do São João de Santo Antônio de Jesus, e talvez esse seja justamente o segredo. No Recôncavo Baiano, a cidade recebe uma das festas mais animadas do Nordeste, combinando grandes shows e uma programação que atravessa a madrugada sem pedir licença.
O destaque está no clima intenso, quase ininterrupto, que toma conta das ruas e atrai gente de diferentes partes da Bahia. É destino para quem quer viver junho sem economizar fôlego.
Quando: 19 a 24 de junho de 2026
Duração: 6 dias de festa principal (com calendário junino estendido ao longo do mês)
Não perca: os shows no Espaço São João, os arrastões juninos, o Festival de Quadrilhas do Recôncavo e o clima de festa que atravessa a madrugada no centro da cidade.
Já confirmado em 2026: João Gomes, Bruno & Marrone, Maiara & Maraisa, Matheus & Kauan, Mari Fernandez, Solange Almeida, Dorgival Dantas, Mastruz com Leite, Mestrinho, Estakazero, Henry Freitas e Toque Dez.
Mais informações: @prefsaj @saojoaodesa
SENHOR DO BONFIM (BA)
Em Senhor do Bonfim, o São João ainda gira em torno daquilo que muita gente procura, mas nem sempre encontra: o forró como protagonista. Conhecida como uma das capitais do forró na Bahia, a cidade preserva uma relação afetiva com a tradição, seja nas festas de rua, seja nas noites embaladas por sanfona e arrasta-pé.
O ponto alto costuma ser o tradicional Espaço Gonzagão, onde a programação celebra o legado nordestino sem abrir mão da animação. Vá disposto a dançar: aqui, junho tem trilha sonora própria.
Quando: 19 a 24 de junho de 2026
Duração: 6 dias de festa principal, além do tradicional projeto 30 Dias de Forró
Não perca: o Espaço Gonzagão, coração do evento, as apresentações no Polo Assis do Acordeon e o clima de forró que toma conta das ruas ao longo de junho.
Já confirmado em 2026: João Gomes, Limão com Mel, Dorgival Dantas, Flávio José, Mastruz com Leite, Bell Marques, Zé Neto & Cristiano, Matheus & Kauan, Tayrone, Tarcísio do Acordeon e Zé Vaqueiro.
Mais informações: @saojoaoembonfim
ARACAJU (SE)
Quando junho chega, Aracaju entra oficialmente em clima junino. O grande protagonista é o Forró Caju, evento que reúne shows, apresentações culturais e uma programação extensa, capaz de transformar a capital sergipana em um dos principais destinos da temporada.
A vantagem aqui é poder combinar arraial com mar: entre uma noite de forró e outra, ainda dá tempo de explorar a orla, os restaurantes e o ritmo tranquilo da cidade.
Quando: 4 a 28 de junho de 2026 (Forró Caju, em diferentes circuitos da cidade)
Duração: quase 1 mês de programação
Não perca: os palcos da Praça dos Mercados Centrais, coração do Forró Caju, além dos circuitos nos bairros Augusto Franco e Santos Dumont, que ajudam a espalhar a festa pela cidade.
Já confirmado em 2026: Wesley Safadão, Simone Mendes, Joelma, Solange Almeida, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Flávio José, Dorgival Dantas, Limão com Mel, Calcinha Preta, Mastruz com Leite, Alceu Valença e Tarcísio do Acordeon.
Mais informações: @prefaracaju
Dois dedos de prosa com o Romeu Aldigueri
Defensor do turismo como agente de transformação de pessoas e cidades, Romeu fala sobre a importância da memória, do valor de saber de onde viemos e da força do Ceará que sonha, trabalha e constrói.

Qual Copa mais lhe marcou?
Romeu: 1994
Tainah Marinho: 2002
Romeu Aldigueri: Foram as idas constantes à Granja, no interior do Ceará. Embora eu tenha nascido em Fortaleza, foi ali, naquela terra de carnaúbas, que aprendi o que é casa.
Grande parte porque é a vida do meu pai. Cada ida contribuiu para o que sou hoje e a importância de nunca esquecer de onde a gente vem.
Romeu: Sempre volto à Granja com um sentimento de pertencimento difícil de explicar. É lá que estão minhas raízes, as lembranças mais fortes e as pessoas que me ajudaram a construir minha trajetória.
Ali aprendi que gestão muda vidas. E Barroquinha, cidade da minha esposa, Tainah, também tem um lugar especial no meu coração.
“É no silêncio das cidades pequenas que a gente escuta o que realmente importa.”
Romeu: As conversas com meu pai na calçada ao fim da tarde. Ele me ensinava sobre a vida com simplicidade e sabedoria. O amor dele pelos livros me marcou muito. Era um cientista. Um intelectual. Valorizava o saber.
“Carrego no peito cada tarde passada ao lado do meu pai — são lembranças que viraram direção para a minha vida inteira”
Qual seu jogador preferido de todos os tempos?
Romeu: Pelé
Tainah: Ronaldo
Romeu: Cidades pequenas, com praça central e bancos debaixo de árvores. Gosto de observar a vida passando devagar, ouvir as pessoas e conversar sem pressa com quem passa. E ver o futebol do Romeu Filho também me diverte.

Romeu Aldigueri é presidente da Assembleia Legislativa do Ceará. É casado com Taináh e pai de Victor, Lígia, Clara, Júlia e Romeu.
Romeu: Uma delas foi visita ao interior do Pará. Vi de perto comunidades que, mesmo com pouco, constroem soluções criativas e solidárias. E uma outra foi Foz do Iguaçu, um lugar surpreendente para encantar todos os brasileiros e estrangeiros que passarem por lá. Lá senti muito perto a presença de Deus.
Romeu: O primeiro passo é investir em infraestrutura nas cidades menores. Quando levamos estradas, saneamento, sinalização e capacitação, abrimos caminho para que lugares incríveis se tornem destinos desejados.
Isso gera emprego, movimenta a economia e transforma realidades locais. Meio ambiente também tem forte poder de atração e geração de empregos.
“Aprendi nas cidades do interior que política só tem sentido quando toca a vida real das pessoas — desenvolvimento não é discurso, é compromisso diário.
Romeu: Cada vez mais, o turista busca refúgios que o ajudem a desconectar da correria e das telas, e o nosso estado tem tudo o que ele procura: um litoral imenso e diverso, a história viva do sertão e o clima acolhedor das serras.

Qual seu jogador preferido da seleção atual?
Romeu: Vini Jr.
Tainah: Endrick
Nossos parques também são incríveis. Nosso Governador Elmano de Freitas tem entendido bem esse movimento e trabalhado com sensibilidade para transformar vocações naturais em oportunidades de desenvolvimento.
A usina que o Brasil ainda não viu
Entrei em lugares no Japão e na África que ficam na memória para sempre. Conheço bem o que o mundo produz de extraordinário em arte, arquitetura e experiência cultural.
Foi num canavial da Mata Sul de Pernambuco que esse olhar encontrou o que talvez seja o projeto mais improvável e mais potente do Brasil contemporâneo.
A Usina Santa Terezinha funcionou durante décadas como uma das maiores usinas de cana-de-açúcar do país. Quando parou, deixou para trás a estrutura industrial, uma comunidade inteira e o peso silencioso de tudo que ali foi construído e destruído.
O que aconteceu depois não tem paralelo simples no Brasil.
Hoje, num parque de 44 hectares, Juliana Notari cravou numa encosta de terra vermelha uma escultura de 33 metros em forma de vulva, concreto e resina, camadas que vão do vermelho ao rosa.

Diva existe pra provocar desconforto com o que deveria ser óbvio: o corpo feminino como paisagem, não como tabu. Marina Abramović ergueu um muro de 25 metros com cristais de quartzo rosa para o visitante encostar o corpo, uma experiência que não se descreve, se vive.
Primeira instalação ao ar livre da artista no Brasil, num canavial de Pernambuco.
Inhotim foi construído do zero numa fazenda de Minas Gerais. A Usina de Arte nasceu dentro de uma usina real, a maior produtora de açúcar e álcool do Brasil nos anos 1950, com toda a memória industrial que isso carrega.Dirão que é o Inhotim do Nordeste. Inhotim é um dos projetos culturais mais extraordinários que o Brasil já produziu, e que bom que continue sendo fonte de inspiração. Mas a comparação para no portão de entrada.
Os galpões de ferro, as estruturas centenárias, as marcas do que ali funcionou durante décadas são parte da obra, não apenas seu suporte. A comunidade que viveu em torno da usina continuou lá, e foi incorporada ao projeto.

Quando entrei naquele território, vim de um percurso por países onde o luxo é construído do zero, onde a identidade é fabricada porque não havia nada antes.
Dubai precisou de um esforço megalomaníaco pra chamar atenção do mundo. O Nordeste tem uma bagagem centenária, autoral, forjada pela necessidade e pela criatividade que nasce quando não há outra saída.A Usina de Arte é a prova mais concreta disso.
O mundo está começando a descobrir isso. O brasileiro deveria ter chegado antes.
É esse propósito que move meu trabalho: posicionar o Nordeste como um dos territórios mais autênticos do mundo.
Meu esforço não é fabricar uma narrativa, é fazer o nordestino se reconhecer na grandeza que já existe na sua própria história.

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Os laços de sangue
Vinha pronta para discorrer sobre hábitos e costumes dos nativos; sobre as pessoas com quem estabelecera contato; vinha preparada até mesmo para enumerar dados oficiais do país visitado, enunciando com familiaridade percentuais capazes de projetar um toque de seriedade ao que havia sido nada mais do que um simples passeio turístico de uma semana.
Trazia para a reunião uma sacola com as lembrancinhas compradas ao longo da viagem, pensando em um e outro destinatário — presentes miúdos enquadrados na categoria “Estive aqui e lembrei de você”: ímãs de geladeira, bonés e bolsas de pano estampando o nome dos lugares visitados. Uma acumulação de objetos inevitavelmente Made in China, vindos na mala de cabine.
Não que estivesse interessada em apaziguar ânimos, fortalecer amizades ou receber a gratidão alheia — gratidão, esse substantivo feminino abstrato que vem empurrando para a lateral do campo linguístico o até então dominante “obrigado”, “obrigada”. Era simplesmente o que gostava de fazer.
Quando ela chega, todos já se encontram sentados ao redor da mesa: meia dúzia de criaturas entretidas com o cardápio e com as conversas, recebendo-a com a energia rotineira de sempre. Ela começa a distribuir as lembrancinhas e a contar sobre a viagem antes mesmo de se sentar.
— Vocês não imaginam como foi maravilhoso! — anuncia em voz alta.
E é claro que todos acreditam. Haviam realizado viagens semelhantes, para destinos quase iguais — ou mais bem posicionados na hierarquia turística — e aproveitam a abertura para desfiar o livro das próprias experiências.
Para o primeiro que se manifesta, em um entusiasmado vozeirão, maravilhosa havia sido a viagem feita pela América do Norte, algum tempo atrás.
Maravilhosa também a experiência da segunda pessoa, a detalhar sua temporada nos vinhedos portugueses no ano anterior. E surge ainda a voz da terceira, que percorrera, há quase dez anos, o mesmo destino sobre o qual ela agora trazia suas impressões recentes.
Sabe-se que, dentro da classificação hierárquica das amizades, estão, em grau ascendente, os conhecidos, seguidos pelos colegas, os amigos, os bons amigos, os amigos próximos e os amigos íntimos. E existe uma categoria à parte, constituída pela família — especialmente pelos irmãos —, cada um deles dotado do mesmo código genético: o eu que nós não fomos.
Pois é isso que são eles e elas, os componentes daquele grupo reunido em torno da mesa de um restaurante barulhento de shopping, repartindo o pão e bebendo o vinho.
É essa comunhão da amizade mais permanente que desperta nela o desejo de silenciar e se ocupar do cardápio, esquecendo o catálogo de informações sobre sua viagem, disposta agora a ouvir as vivências alheias.
É verdade que, em um primeiro momento, ela se sentira frustrada por não encontrar ouvidos para o discurso que trazia na ponta da língua: os três milhões de habitantes do destino visitado; a segurança em que vivem os cidadãos de lá; a ausência de patrulhamento ostensivo nas ruas; a facilidade com que seu grupo, meros turistas, entrara no palácio governamental; as ondas revoltas causadas pela ventania, com alvas cristas de espuma sobre um rio de prata mais semelhante ao mar; a estranheza dos cinco dedos de concreto brotando da areia de uma praia assolada pelo vendaval; a Casa Pueblo, inventada em branco por um artista quase louco; a avenida de mais de vinte quilômetros de extensão recortando a beira-mar, a beira-rio; tantas coisas que ela já nem se preocupa mais em relembrar.
Se quisesse, poderia erguer a voz e chamar atenção para suas histórias. Prefere silenciar e ouvir a voz deles, depois dos dias de ausência.
É assim que são essas pessoas, há tantas décadas ao seu redor: uma audiência desinteressada, embora nada disso seja feito por mal. Ela escreverá sobre o que viu, e os que quiserem conhecer um pouco de suas lembranças poderão ler — ou não — o que for escrito.
Mais valioso para ela, acima de tudo, é reconhecer o sentimento de cumplicidade, fraternidade e sororidade que mantém unidas aquelas meia dúzia de criaturas, preservando intacta a imensa sacola de lembranças que aperta, desde sempre, pelos laços do sangue, as memórias daquele pequeno grupo de irmãs e irmãos do qual sente imenso orgulho de fazer parte.
Notas sobre a saudade
Pedro Barros Fonseca - Saí do Recife rumo a Vitória, no Espírito Santo, em 2004. O que seria um trabalho pontual de quinze dias se transformou em dois anos.
Havia levado uma pequena bagagem de mão – e com ela fiquei durante todo esse tempo. No Recife deixei um grande amor – e vi ele indo embora.
Só que distância é um bicho danado para alimentar saudade. Então a cada mês eu pensava mais, eu sentia mais, eu queria mais aquele grande amor, ainda que não tivesse (nem desse) notícia alguma.
E justo quando completei dois anos fora, a uma semana do carnaval, chamei minha chefe na varanda do escritório e disse a ela num gole só de coragem: eu vou embora pro Recife, porque preciso reencontrar meu grande amor, antes que ele esqueça que existo. Ela nem conseguiu brigar comigo e disse vá. E fui.O silêncio é um alpiste para esse pássaro de gaiola.
Cheguei num domingo e fui direto para o Recife Antigo, onde os blocos de frevo de rua estariam certamente juntando quem é de bem. E uma voz me dizia vai, outra voz cantava vai. No instante em que cheguei e olhei com espanto para a multidão, meus olhos desacreditaram.
Lua estava ali no meio do furdunço. Larguei meu queijo coalho na mão do meu amigo Maia e disse que voltava logo.
Corri, a alcancei, peguei seu telefone e dei o meu, era fevereiro e em julho casamos. Naquela noite, quando senti o cheiro dela de novo, aquele cheiro de carnaval no meio peito, entendi o que era saudade.
Nunca mais falei com minha ex-chefe, nunca mais vi Maia. Lua e eu estamos casados há 20 anos.
Foram três anos mágicos e mal sabia eu que eram apenas o início de uma transformação em mim. Saímos daquela escola e decidimos seguir juntos, como banda.
Haviam muitos nomes bons, mas escolhemos o pior deles: Habagaceira. Sei que vai ser difícil acreditar, mas o som era bom, apesar do nome. Tocamos muito.
Recife, Salvador, Aracaju, Natal, Maceió, Fortaleza. Foram muitos anos juntos, até que fui embora do país e deixei meu posto vago. Os meus amigos encontram não apenas um, mas vários outros vocalistas, seguiram em frente, tocaram a vida. E em algum momento, nos abraçamos de novo, escolhemos voltar a tocar juntos.
Ao todo, foram 35 anos assim. No ano passado, decidi que seria meu último show. Fui ao Recife, juntamos mil e poucas pessoas nessa despedida linda – onde até meu filho mais velho subiu ao palco para tocar. Mas aí já é outra história.
Fiz as pazes com Recife há pouco tempo, pós-pandemia. Depois de sair de lá e me aventurar em tanto mundo, criei uma barreira protetiva, intuitiva. Porque gostar do Recife e estar longe seria tão doloroso quanto não ter nascido lá. E fui nutrindo uma espécie de ranço seletivo.
Dizia o quanto odiava o trânsito. Dizia o quanto me incomodava a destruição dos mangues. Dizia até que haviam carnavais melhores. Tudo mentira, tudo inventado para me acomodar na lonjura.
Só que depois da pandemia e da outra doença mortal que acometeu o país, percebi os afetos entrando de volta pelos meus poros. E o Recife estava nesse lote de vacinas contra a desesperança.
Cheguei lá no início de 2022 e sorri no trânsito, elogiei a preservação dos manguezais, chorei no carnaval. E desde então, não abro mão. Todo ano estou lá. Na chuva ou no mormaço.
Pedro - Música. E poderia aqui fabular uma resposta outra, mas sou adulto e preciso bancar as minhas verdades. Música. É o instrumento de vínculo mais poderoso com minha terra.
Entendo as belas perguntas sobre o Recife e essa saudade escrita e musicada, especialmente numa terra onde as palavras e canções nasciam das penas de Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Capiba, Luna Vitrolira, Lenine, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho, Flaira Ferro, Adelaide Ivanova e mais uma infinita lista de escribas de luxo.A saudade é insípida e se alimenta de gente.
Por outro lado, penso que toda saudade que se alimenta de mim quer me arrancar outras existências da memória – e não deixo, não deixarei. Não podemos deixar a saudade nos engolir, só morder, para a gente se mexer e escapar.

Pedro - Viu? Você mesma acaba de trazer esse desencontro fatal. Saudade das pessoas de um lugar.
Sabe o que temos feito aqui em casa? Rituais de comer, ouvir e cantar o chão onde pisamos primeiro. Um cozido pernambucano mata a saudade. Uma história de infância mata a saudade. Uma música nova de Amaro Freitas mata a saudade.
Eu sei, depois ela volta, ressurge das quartas-feiras de cinzas. E aí a gente canta mais uma música, conta mais uma história, come outra lembrança. E a espanta novamente.
Pedro - Partilho uma experiência em tempo real. Li a pergunta, comecei a escrever, apaguei, escrevi, apaguei. Algumas vezes isso, esse arrependimento que precede a conclusão honesta: não sei.
Penso que talvez seja esse o desafio de sentir e viver uma saudade. Não saber como se desfazer dela. E se é mesmo possível. Deve haver uma beleza nisso, em alguns lugares dessa relação.O que sei é que a saudade partilhada se distrai, fica sem saber nos atacar. E a saudade em solidão, me ajuda, Alceu, é fera, devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo. Eu não sei.
Saudade de verdade é poeira nos olhos que não nos deixa ver luzes nos fins de túneis. Saudade raiz é macaxeira. Saudade grande é baobá cravado no coração da gente. Saudade oficial é saber os nomes das ruas de cor. Saudade que se preza dá tontura, enjoo e sede – de viver. Saudade ensina a gente que nem tudo é para a gente aprender.Quem fala que existe saudade boa não está sentindo saudade. Está só esperando.
Sofrer, por exemplo, a gente já nasce ensinado. Só precisa viver para ter certeza que está mesmo sofrendo. De saudade.

Pedro Fonseca Barros (@peubfonseca), o Peu da Lua, da Irene, do João, da Teresa e do Joaquim, fundador do projeto Sala de Alma, Sócio da Rede Amparo e podcaster no “Dilemas”, faz o Enzo, codinome que dá a quem compartilha seus impasses no podcast, “fiou” com a gente uma conversa sobre saudade.
Ele, que é também escriba, além de gente finíssima, elegante e sincera, nasceu em Recife, debandou do Recife, ficou de mal do Recife e fez as pazes com o Recife, enfim, viveu todas as fases, estreia a seção falando mais sobre esse bichinho que o mordeu tem tempo, mas que segue coçando e doendo.
Barbalha em estado de Graça
O som chega antes da imagem. Um trio de forró toca numa calçada improvisada. Algumas casas viram camarotes; outras, cozinhas coletivas.
Tem cerveja passando de mão em mão, cadeiras de plástico ocupando as ruas, crianças correndo entre adultos e um movimento curioso de gente que parece se reencontrar.
De alguma varanda, alguém aponta para longe e avisa, quase como quem anuncia uma visita esperada:
- Já já ele passa.
“Ele”, nesse caso, não é exatamente alguém. É um tronco de árvore de mais de vinte metros, carregado nos ombros por centenas de homens, seguido por uma multidão em estado de devoção e euforia.
29 de maio a 13 de junho de 2026
Em Barbalha, ninguém fala apenas da Festa de Santo Antônio. Fala-se do Pau da Bandeira. Do Pau. Como quem fala de um personagem central.
A tradicional Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, reconhecida como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN desde 2015, reúne milhares de pessoas em torno de uma celebração onde religião, cultura popular e a "festa da carne” não parecem disputar espaço. Pelo contrário: convivem.
E essa é justamente a primeira surpresa de Barbalha: ninguém parece exigir que você escolha entre devoção e celebração.

Mas também estão os shows, as bandas cabaçais, as quadrilhas, os encontros, os brindes, os beijos, as conversas regadas a doses de cachaça da boa que atravessam a madrugada com uma energia difícil de enquadrar.
“Uma das coisas que mais me marcou foi essa convergência do mundo pagão com o religioso”, conta Rafael Vital, advogado e olhar por trás de algumas das fotos desta matéria. “Você vê a aclamação do santo, a coisa católica, o reisado, e isso tudo acontece junto. Sem nenhum assombro.” Lá, a fé ocupa a rua e a rua devolve tudo em festa.
O gestor público Higor Batista, que cresceu acompanhando festas religiosas do interior do Ceará e é frequentador assíduo do Pau da Bandeira, conta que uma das coisas que mais o surpreendeu foi justamente essa convivência.
“É uma festa religiosa muito grande, mas o lado cultural também é enorme”, explica. “Na mesma proporção que existe a devoção, também existe liberdade, diversidade, afeto. Parece uma festa onde cabe tudo.”
O domingo do Pau da Bandeira marca a abertura simbólica dos festejos juninos do Nordeste e concentra o cortejo, a passagem do Pau e seu hasteamento diante da Igreja Matriz.
O domingo do Pau da Bandeira marca a abertura simbólica dos festejos juninos do Nordeste e concentra o cortejo, a passagem do Pau e seu hasteamento diante da
Igreja Matriz.

“Você vê vários ritmos, vários tipos de pessoas, muita diversidade. Parece um ambiente onde as pessoas se sentem livres para serem quem são. E isso, numa cidade do interior, é muito bonito de ver.”, celebra.
O segredo mora na manhã
Quem vai pela primeira vez costuma cometer o equívoco de achar que a festa começa quando o Pau da Bandeira passa. Não começa. Ou melhor: quando o Pau cruza a cidade, metade da história já aconteceu.“O grande erro de quem vai pela primeira vez é chegar só à tarde”, resume Larissa Luz, profissional de marketing apaixonada pelo festejo. “As pessoas querem ver ele passar, mas a parte mais bonita, para mim, acontece antes.”
Antes da catarse coletiva do fim do dia, existe uma Barbalha que acorda cedo: com janelas tomadas por famílias inteiras, com churrascos improvisados na calçada, com música em todas as esquinas e mais de 70 grupos culturais ocupando a cidade.
“É como se fosse o Natal do barbalhense”, resume Higor. “A população inteira se envolve. As pessoas decoram suas casas, fazem festas, chamam amigos, reencontram pessoas.". Há algo profundamente coletivo acontecendo ali. A cidade vive aquilo.
“Quem vai precisa assistir ao cortejo da manhã”, insiste Higor. “Muita gente só chega perto do horário do Pau, mas o cortejo é um dos pontos altos da festa. Você vê reisado, maracatu, manifestações culturais lindíssimas. É algo muito emocionante.”

Larissa concorda, para ela, o cortejo é quase uma síntese do espírito de Barbalha: “a missa da manhã é muito bonita, mas quando ela sai para a rua e vira cortejo, você entende outra dimensão da festa”, conta.
“Tem crianças das escolas, grupos tradicionais, idosos, famílias inteiras. É muito emocionante porque é a própria população fazendo aquilo acontecer.”
“Enquanto o Pau não chega, existe uma festa acontecendo o tempo inteiro. Cada casa tem uma banda, um trio pé de serra, comida, bebida.É muito impressionante como todo mundo participa.”, completa Rafael, acostumado a visitar a cidade à noite, descobriu que as manhãs em Barbalha se tornaram a dica de ouro de quem deseja sentir a mística da celebração.

Quando ele passa
Por volta do fim da tarde, o assunto da cidade deixa de ser “se” o Pau vai passar. A pergunta vira “quando?”.E então a espera e a festa ganham outra textura: as ruas ficam mais cheias, as pessoas se comprimem, a ansiedade cresce.
O segredo da festa mora na manhã: missa, cortejos, reisados, maracatus e manifestações culturais ocupam a cidade desde cedo.
O segredo da festa mora na manhã: missa, cortejos, reisados, maracatus e manifestações culturais ocupam a cidade desde cedo.
E, de repente, alguém grita: lá vem! O Pau da Bandeira de Santo Antônio, um tronco que pode pesar toneladas, surge carregado nos ombros de centenas de homens, atravessando a cidade até a Igreja Matriz.
Reduzir a cena a uma procissão talvez seja pouco. Porque o que acontece ali está mais próximo de uma catarse coletiva. Existe suor, esforço, euforia, lágrimas.
Existe algo quase impossível de explicar para quem vê apenas de fora. “O Pau deixa de ser só um tronco”, diz Larissa.
“Quando ele é hasteado, é muito emocionante. No último ano, eu vi ele passar da casa onde estava e depois fui acompanhar o momento em que ele é fincado e levantado. Todo mundo naquela expectativa, naquela emoção… começam os fogos, as pessoas gritam. Eu chorei.”, admite ela.

Quando o Pau da Bandeira finalmente sobe diante da igreja, por alguns minutos, parece que Barbalha inteira segura a respiração. E depois explode.
“Nas pessoas, nas beatas, nos carregadores. É muito vivo. Muito forte.”.
Não dá pra duvidar dessa força, mas uma pergunta ainda é inevitável: por que um tronco emociona tanta gente?
Barbalha se vive na rua. Vá disposto a caminhar, improvisar e aceitar convites inesperados. Às vezes, a melhor experiência acontece numa calçada qualquer.
Barbalha se vive na rua. Vá disposto a caminhar, improvisar e aceitar convites inesperados. Às vezes, a melhor experiência acontece numa calçada qualquer.
A resposta está no que ele representa: crença, memória, pertencimento. Um símbolo que volta todos os anos para lembrar que junho chegou - e renovar os votos com aquela que não costuma faiá: a fé.

Chás, mistérios e promessas
Rafael fala disso como quem conhece o território: “o Cariri sabe fazer mística.”. E por lá, muitas delas envolvem o protagonista do festejo: Santo Antônio, muito requisitado nas orações e nas "simpatias” das “moças que buscam um bom marido”.
Na véspera do Pau, a famosa Noite das Solteironas (que o Higor citou) ocupa as ruas da cidade misturando esperança e brincadeira. É nessa noite que aparece uma das personagens mais queridas da festa: Dona Socorro Luna.
Da varanda de casa, bem no caminho do cortejo, ela distribui gratuitamente o famoso chá da casca do Pau da Bandeira, um ritual que, segundo os mais supersticiosos, ajuda a encontrar casamento. A ironia, lembrada com carinho pelos frequentadores, é que Dona Socorro nunca se casou.
[embede post instagram chamada "Solteirona de Santo Antônio....
Mas isso pouco importa. Em Barbalha, nem toda crença precisa de comprovação. Às vezes, basta virar história.
“Você vê pessoas tocando no Pau, querendo pegar um pedaço da casca, tomando o chá”, conta Higor. “Pode parecer folclore para quem é de fora, mas ali aquilo faz parte da experiência.”
Larissa ri ao lembrar que também tomou o chá. “É uma festa muito emocional”, diz.
“É muito popular. O que mais me impressiona é como a população toma aquilo para si.”
E esse pode ser um dos maiores encantos de Barbalha: ela não parece interessada em impressionar turistas, nem em parecer grandiosa. É mais sobre continuar montando nas ruas um altar para as suas tradições, sagradas e profanas.
Você vai. Barbalha fica.
Não é tão simples explicar a energia de Barbalha para quem nunca esteve ali. Porque, no fim, não é exatamente sobre o Pau, nem apenas sobre Santo Antônio. É sobre aquilo que acontece quando uma cidade inteira parece se conectar em um mesmo estado de espírito.
Existe uma música que atravessa aqueles dias quase como uma trilha sonora oficial da festa: “Seus olhos verdes são lindos canaviais…”, de Alcymar Monteiro.Higor suspira saudoso quando fala dela, “Não tem como ouvir essa música e não lembrar de Barbalha.”
A sensação quando se vai embora é que algo ficou.
O som do pífano, o calor das calçadas, a alegria das janelas. A lembrança de um povo vivendo sua fé, sem abrir mão da festa.
instagram.com/festadesantoantoniodebarbalha
É então que se compreende porque quem vai, sempre volta, ano após ano, como quem retorna para uma cidade que passou a viver também dentro de você.

Samuel Macedo: do Cariri para o mundo
Desde então, transformou o olhar em caminho: entre mestres da cultura popular, reisados, romarias e gestos cotidianos, construiu uma fotografia atenta ao que resiste, ao que encanta e ao que quase passa despercebido.
Seu trabalho atravessa o documental e o poético, revelando um Brasil profundo, vivo e profundamente humano - como ele.
Guia afetivo do Cariri para crianças
O material a seguir, além de supercompleto, vem recheado do afeto de quem, após partir e voltar pro seu aconchego, aprendeu a olhar com encanto para o próprio lugar.
Há lugares que a gente visita e outros que parecem reconhecer a gente antes mesmo da chegada. O Cariri Cearense, definitivamente, faz parte da segunda opção.
Precisei morar fora para entender melhor a força da minha própria terra.
Leve com você na poltrona uma bolsa de acesso rápido com lenços umedecidos (multiuso para limpezas de emergência), álcool em gel e uma mini farmacinha.

O Cariri tem um jeito raro de acolher: gente que olha nos olhos, café passado na hora e cidades onde cultura e cotidiano continuam andando juntos.
Inclua remédios para enjoo (o balanço do ônibus na BR pode dar náuseas nos pequenos), analgésicos/antitérmicos de costume, curativos adesivos e qualquer medicamento de uso contínuo. Lembre-se: o ônibus estará em movimento e as farmácias da estrada podem estar fechadas ou distantes na hora do aperto.
CRATO
Em Crato, a sensação é de equilíbrio entre natureza e vida cultural. A trilha do Belmonte talvez seja uma das formas mais bonitas de compreender a relação afetiva do caririense com a Chapada do Araripe.O ideal é subir cedo ou no fim da tarde, quando o vento muda e a paisagem parece respirar diferente. O acesso principal pela Avenida José Horácio Pequeno, bairro Belmonte, Crato - CE.
No Museu Histórico do Crato J. de Figueiredo Filho, o visitante encontra fragmentos importantes da memória regional e entende melhor as muitas camadas culturais do Cariri.
O espaço fica na Rua Senador Pompeu, 502, Centro. Aberto de terça a sexta, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h às 12h. Ah, e a entrada é totalmente gratuita.
Já o Centro Cultural Sérvulo Esmeraldo mostra um Cariri contemporâneo, criativo e artisticamente vivo.
Uma mantinha leve para cada criança e um travesseiro de pescoço infantil fazem toda a diferença para garantir um sono contínuo. Vista os pequenos com roupas confortáveis, de moletom ou algodão, e evite sapatos difíceis de tirar.

Localizado na Avenida Joaquim Pinheiro Bezerra de Menezes, 1, Batateiras. Funcionamento de quarta a sexta, das 15h às 20h, e aos sábados e domingos, das 8h às 20h. Também é aberto ao público, sem cobrança de ingressos.
JUAZEIRO DO NORTE
Em Juazeiro do Norte, fé, arte popular e movimento urbano convivem o tempo inteiro. O Horto do Padre Cícero continua sendo parada obrigatória para quem deseja compreender a dimensão simbólica e afetiva da cidade.A subida pelo bondinho revela pouco a pouco a paisagem da Chapada e a imensidão de Juazeiro vista do alto.
Fica na Colina do Horto, Juazeiro do Norte - CE. A bilheteria funciona das 8h30 às 16h30, com embarques das 9h às 16h40. O ingresso para o trajeto completo, ida e volta, custa R$30 a inteira e R$15 a meia.
Misture a praticidade com alimentos que não façam muita sujeira e facilitem a digestão. Uvas sem caroço, gomos de tangerina, chips de banana, biscoitos de polvilho e sanduíches naturais (sem maionese ou ingredientes que estraguem rápido) são ótimas opções. Não esqueça garrafinhas de água individuais com bico antivazamento.
O Centro Cultural Mestre Noza e o Ateliê Compadres preservam a tradição do artesanato popular caririense em madeira, barro e escultura.
O Centro Cultural Mestre Noza fica na Rua São Luiz, 96, Centro, com funcionamento de segunda a sexta, das 8h às 17h. Já o Ateliê Compadres é localizado na Avenida Maria Letícia Leite Pereira, 4330, Campo Alegre, e atende pelo Instagram @ateliecompadres.
A Lira Nordestina mantém viva a tradição do cordel e da xilogravura no coração do Cariri. Rua Interventor Francisco Erivano Cruz, 120, Centro. Aberto de segunda a sexta, das 8h às 17h, e aos sábados, das 8h às 12h. No Instagram: @liranordestinaxilogravura.
BARBALHA
A cidade de Barbalha parece existir num ritmo próprio. O seu centro histórico convida para caminhadas lentas entre casarões antigos, ruas arborizadas e uma delicadeza cada vez mais rara.No Complexo Ambiental Mirante do Caldas, o passeio começa logo na entrada do casarão, onde há um pequeno museu que apresenta um pouco da história e da importância ambiental da Chapada do Araripe.
A subida de teleférico acontece lentamente, revelando pouco a pouco o verde da Chapada do Araripe enquanto a cidade vai ficando menor lá embaixo.
O vento muda, a temperatura fica gradualmente mais fresca e existe um momento em que a paisagem parece simplesmente se abrir diante dos olhos.
Ao chegar na parte superior do Complexo, o primeiro espaço costuma surpreender especialmente as famílias: o Borboletário.
Ali, guias apresentam de forma delicada e acessível todo o processo de nascimento, desenvolvimento e transformação das borboletas.
É o tipo de passeio que encanta crianças, mas que também faz muitos adultos desacelerarem o olhar.
Depois, o caminho segue até o mirante principal. E talvez seja ali que o visitante compreenda por que tanta gente do Cariri fala da Chapada do Araripe como quem fala de um ser de carne e osso.
A vista é esplendorosa. Imensa. O horizonte parece não terminar nunca, e a sensação é a de estar diante de uma paisagem muito maior do que qualquer fotografia consegue registrar.
Na descida, novamente pelo teleférico, tudo parece mais silencioso. E então faz sentido deixar o passeio continuar um pouco mais, tomando um belo de um cappuccino na Cafeteria do Mirante.
A Cafeteria do Mirante, oficialmente conhecida como Casa Café Premium, está instalada no Complexo Ambiental Mirante do Caldas (CE-386, nº 120, distrito de Caldas, Barbalha-CE). Funciona de quarta a sexta das 09h às 17h e estica um pouquinho aos fins de semana, fechando as portas às 18h.
Para distrair as crianças sem depender exclusivamente das telas (que podem causar enjoo no movimento do ônibus), aposte em livrinhos de colorir com giz de cera, jogos de cartas, fones de ouvido com audiobooks ou playlists de histórias contadas, e brinquedos pequenos que não tenham partes fáceis de perder no chão do veículo.
Entre os podcasts, indicamos: “Coisa de Criança”, “Planetário”, “Era Uma Vez”, “Fafá Conta” e “Historinhas do Ninho do Periquito”.
NOVA OLINDA
Em Nova Olinda, a Fundação Casa Grande é uma das experiências culturais mais emocionantes da região.
Lá, são as crianças que operam rádio, trabalham com fotografia, música e preservação da memória local, tornando a visita algo muito mais humano do que uma experiência convencional de museu. Rua Jeremias Pereira, 444, Centro.
O espaço principal de visitação do museu funciona de terça a sábado, das 9h às 17h.
O complexo da instituição também conta com espaços de apoio no entorno com programações específicas, como o Restaurante da Casa Grande (segunda a sábado, das 7h às 14h), o Café Violeta (quinta a sábado, das 8h às 17h) e o Nova Olinda Café Cultural: terça a domingo, a partir das 17h.
Na mesma cidade, o ateliê do Mestre Espedito Seleiro preserva a tradição do couro reinventada em peças coloridas que se tornaram símbolo do artesanato brasileiro.
No Centro da cidade há um quarteirão inteiro dedicado a este grande Mestre.
Lá você pode visitar o Museu do Couro, o ateliê onde Seu Espedito trabalha todos os dias e a lojinha, com uma variedade enorme de opções que vão de calçados, bolsas, utilitários e móveis.
Além de um Mestre internacionalmente conhecido, Seu Espedito é uma figura ímpar e uma exímio contador de histórias.
Rua Monsenhor Tavares, 318, Centro, Nova Olinda - CE. Abre as portas de segunda a sábado, de 8h às 17h, e domingo de 8h às 12h.
O instagram do mestre é @espeditoseleirooficial e o whatsapp para contato (88) 99294.2195.
A Guanabara costuma fazer suas principais paradas de apoio em postos estruturados ao longo da BR-116 e da CE-060, como em postos nas regiões de Russas ou Quixadá, dependendo da rota exata da linha. Use esses 20 ou 30 minutos de parada não apenas para ir ao banheiro, mas para fazer a criança caminhar, esticar as pernas e respirar o ar de fora antes do próximo trecho.
SANTANA DO CARIRI
A poucos quilômetros dali, em Santana do Cariri, o Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens transforma a visita ao sertão numa verdadeira viagem no tempo, que considero especialmente encantadora para famílias com crianças. Ali estão fósseis encontrados na Chapada do Araripe, uma das regiões paleontológicas mais importantes do mundo e parte fundamental do GeoparkAraripe.
Peixes, insetos, plantas e espécies pré-históricas ajudam a contar como aquele território existia milhões de anos antes de nós. E talvez seja justamente isso que torne a experiência tão fascinante:
perceber que o sertão que vemos hoje já foi mar, floresta e abrigo de formas de vida completamente diferentes.

Mais do que um museu, o espaço ajuda a desenvolver um olhar de pertencimento e cuidado com o patrimônio natural da Chapada do Araripe, mostrando que preservar a memória do planeta também é uma forma de compreender quem somos.
Rua Dr. Plácido Cidade Nuvens, 326 – Santana do Cariri. Funcionamento: terça a sábado, de 8h às 16h; domingo, de 08h às 13h.
Talvez seja isso que torne o Cariri tão especial: aqui, tradição não parece parada no passado. Ela continua viva na natureza, nas bandas cabaçais, nas mãos dos artesãos, nas crianças da Fundação Casa Grande, no cordel vendido em Juazeiro e nas conversas demoradas que ainda sobrevivem ao ritmo apressado do mundo.

É um dos lugares que conheço que mais conservam humanidade. Se você decidir vir conhecer o Cariri, venha sem pressa.
Deixe espaço para os encontros inesperados, para os cafés demorados, para as histórias contadas por desconhecidos e para o vento da Chapada reorganizando alguma coisa aí dentro também.A viagem de Fortaleza para a região do Cariri feita com a Expresso Guanabara é uma rota tradicional, cruzando o estado rumo ao sul cearense.Tenho a impressão sincera de que você não vai embora daqui exatamente da mesma forma que chegou.
Os ônibus partem do Terminal Rodoviário Eng. João Tomé (Rodoviária de Fortaleza) com destino às rodoviárias de Crato e Juazeiro do Norte.
Horários e linhas: A frequência de saídas é alta ao longo do dia, intensificando-se no período da noite.
As categorias Executivo e Leito (leito-cama) são ideais para quem viaja com crianças menores por conta do espaço e da inclinação das poltronas.
As saídas mais procuradas acontecem entre 19h e 22h, permitindo que a família durma durante o percurso de aproximadamente 9 a 11 horas de viagem.
Passagens: Os valores variam de acordo com o serviço escolhido. O bilhete do serviço Executivo gira em torno de R$140, enquanto as poltronas Leito e Leito-Cama costumam ficar entre R$215 e R$ 330 por trecho.
Crianças no ônibus: De acordo com a regulamentação da ANTT e da ARCE, crianças de até 6 anos (incompletos, ou seja: (ou seja, até 6 anos, 11 meses e 29 dias) não pagam a passagem, desde que viajem no colo do responsável e não ocupem uma poltrona individual.
A partir dos 6 anos completos, o pagamento do bilhete é integral.
Apaixonada pela cultura caririense, gosta de divulgar as suas riquezas, tradições e encantamentos através da escrita e das experiências culturais da região. @candicecardoso
Zezé. Preto Zezé.

Essa vida, apesar de sofrida - não apenas, mas também sofrida - o ensinou a resistir, empreender e inovar, nem que fosse como estratégia de sobrevivência.
Essa vida, passada e ainda tão viva, é que lhe dá mapas para lidar com o presente e sonhar com um futuro melhor.
Pela primeira vez delegando um pouco, seja para inteligência artificial ou ancestral, por meio da troca com gente sabida a sua volta, Preto sonha (e age) por um Brasil capaz de criar saídas brasileiras para desafios brasileiros, de plugar e conectar talentos.
Um tempo outro, onde as conquistas possam ser celebradas - e para todos -, onde haja emancipação do corpo, da mente e, sobretudo, do desejo.
Onde gente preta possa ser vista, incluída, respeitada. Circular, criar, consumir, ascender sem a necessidade de constranger ou militar, por não estar sozinha. Onde gente preta possa ser “só” isso mesmo, gente.
Pela primeira vez pesando menos de três dígitos, curte a paternidade com mais prazer do que sacrifício e vem encontrando, entre cpf e cnpj, entre alegria e luta, o equilíbrio.

Preto Zezé: A gente vive hoje um momento que as pessoas falam muito de empreendedorismo, inovação...
A gente tem que produzir soluções todos os dias, e eu sou muito resultado disso.Acontece que na favela a gente empreende e inova por necessidade de sobrevivência.
Quando eu ganho prêmio ou sou reconhecido pelo trabalho da CUFA, para esses eventos, as pessoas sempre citam uma trajetória muito de privações, de sofrimento, de injustiças.
E aí vem esse discurso de "você chegou lá", então, eu sempre aproveito esses momentos para fazer uma provocação.
Porque da minha geração éramos 30, deve ter sobrado umas cinco, quatro pessoas. Faço a seguinte pergunta: ao invés da gente colocar essa trajetória como algo grande, de superação, e a chegada em algum lugar, a gente se perguntasse:
Se com essa lógica toda de privações, de injustiça, de desperdício de inteligência, de potência, o Zezé chegou lá, imagina quantos desses não estão por aí que não estão tendo a chance ou a sorte que eu tive!mas se o país não fosse esse pavilhão de liquidação de inteligência, de talentos, se ele fosse um lugar de oportunidades, de riqueza dividida, de chances compartilhadas, quantos Preto Zezé a gente não ia ter?
Uso sempre esses momentos, essa trilha reconhecida pelas pessoas, para fazer essa reflexão, virar a câmera para o outro lado do filme.

BV: Falando um pouquinho aqui de Fortaleza, qual é o cheiro ou som da tua infância que quando surge, te lembra de quem você é e não quer deixar de ser, a despeito do cargo que ocupa?
PZ: As memórias e os cheiros que tenho de Fortaleza são de uma cidade que me educou e me deu resiliência.
Lembro do cheiro da comida que a dona Fátima fazia de madrugada para não ficarmos com fome no estacionamento, e da terra molhada nas ruas da Quadra quando chovia.
A gente brincava de pião e de peixe, uma brincadeira de ferreiro onde enterrávamos casca de laranja.
Hoje não tem mais rua de terra nas favelas, tudo foi urbanizado e asfaltado. Logo, também não tem mais pé de manga, de caju ou de jambo, nem aquele corre-corre de criança descalça na rua.
Sinto muita saudade desse tempo em que tinha mais sombra, mais vento e água limpa para beber.
Nem tudo era pelo dinheiro; a gente não precisava pagar por cada deslocamento como hoje. Por incrível que pareça, mesmo naquele contexto injusto e excludente, tínhamos muito mais vitalidade.
Estamos caminhando para um mundo tão tecnológico, com inteligência artificial, que ser humano e ter vitalidade vai ser a grande riqueza.
De vez em quando, quando visito um bairro com uma dinâmica mais popular, as pessoas se surpreendem. Um dia, eu estava sentado no chão em uma favela e me perguntaram: “Você senta no chão?”.
Existe esse estranhamento porque hoje sou uma pessoa de visibilidade, mas eu respondo: “cara, eu vim daqui, vim de ruas de terra iguais a essa”. Sou filho desse lugar, dos barracos de madeira e das ruas sem luz.
Quanto mais ocupamos espaços de visibilidade e subimos nessa escala de ascensão e contatos, mais o mundo tenta nos puxar para longe do nosso chão.Essa é a minha origem e mantê-la viva é uma forma de não me perder.
Essas memórias são as minhas âncoras para nunca perder a gravidade e não ser arrastado por esse mundo tão rápido, tão dinâmico.

BV: Imagino que a diplomacia da favela deva exigir um equilíbrio emocional absurdo.
Em que momentos o Preto Zezé “institucional” precisa silenciar o Preto Zezé ativista para que a agenda avance? E como você lida com esse conflito interno?
PZ: A vida de um líder ativista é difícil. Quem está de fora não sabe como é solitário estar em lugares onde nunca há ninguém como nós, às vezes nem em posições de serviço, de tão distante que é esse Brasil.
O meu próximo livro traz um capítulo chamado 'As lições e os aprendizados da solidão no topo'. O topo traz fama, visibilidade e contatos, que são o maior ativo, mas é isolado.
Enquanto você está na invisibilidade do sofrimento, há solidariedade na tragédia. Mas quando você chega no topo, parte torce pelo seu erro e outra parte te cobra coisas sem nunca ter colaborado com nada.
Passamos a ser mais cobrados que o prefeito, o governador ou o presidente. Eu já chego nesses espaços todo ferido, cheio de cicatrizes, e ainda preciso dar conta de segurar toda essa responsabilidade? Não dá.
Minha forma de continuar humano é renunciar a esse peso. Respiro e pego um tempo para o meu CPF.Hoje, sexta-feira, decidi deixar o José na escola conversando com ele sobre o futuro, dar uma caminhada na praia, buscá-lo para comprar um tênis novo porque o bicho está crescendo rápido.
Mais tarde vou namorar, ir ao cinema, ler ou escrever, cuidar um pouco do meu novo livro... Me dou o direito de viver.
É o equilíbrio necessário para não enlouquecer, porque as demandas são diárias. Se você não responde uma mensagem, vira a pior pessoa do mundo da noite para o dia. A lida é muito tensa.
Tento ficar em paz com minhas fraquezas e não me sentir tão pressionado. Eu choro, fico triste e, às vezes, só quero ficar sozinho, o que não é ser antissocial, é um direito de qualquer um.

Às vezes a gente não dorme à noite se cobrando para ser um bom pai, um bom companheiro, um bom profissional e um bom líder, sendo injusto com a gente mesmo.
Quando a pressão aperta, eu olho para trás e penso "eu já estive no tempo mais difícil e tinha mais resposta, deixa eu voltar um pouco lá para o tempo difícil e pensar como é que eu faria”.
Muitas vezes, o passado me dá mapas para eu sobreviver no presente e sonhar com um futuro melhor.
Para você, que também trabalha com entretenimento, com cultura, em que medida a música e a celebração na favela são ferramentas políticas de fato?
A alegria consegue ser um espaço de cura para quem apanha do sistema todo dia ou corre o risco de ser uma anestesia?
PZ: O Luiz Antônio Simas eu costumo chamar ele de o filósofo de boteco e o bruxo das esquinas.
Professor das ruas, porque eu gosto muito do que ele do que ele como ele situa o que acontece no mundo não formal, no mundo não escrito, no mundo não dito, ou até mesmo no mundo material, porque ele consegue decodificar as simbologias, as leituras, os símbolos espirituais, sensoriais, extraterrenos, e conectar isso com a vida, com a realização, com o fazer, com o encontro.

Não é só você empurrar o carro, é você ser o palco, é você ser a beleza, é você ser o criativo, acho muito massa. Sou fã dele.
Mas, assim, voltando aqui para a pergunta, a alegria é revolucionária. Nós já passamos anos e anos na fase da inclusão, agora o cara incluído quer ir além.
O moleque que foi incluído e pegou os programas sociais, ele quer criar a marca de roupa dele, cara.
A menina que se sentiu bonita e deixou o cabelo black dela crescer e não alisa mais porque se sente uma negra altiva, bonita, ela quer montar a marca dela, ela quer montar o seu estúdio de maquiagem, quer montar o seu salão de beleza, ela quer ser dona de uma marca, como a Boca Rosa foi, ou quer montar uma marca de roupa como o Lab Fantasma montou, do Emicida.
Então, as pessoas querem uma consolidação para poder usufruir dos benefícios conquistados.
E eu acho que, às vezes, as pessoas não entendem isso, porque é um país de novo, 388 anos que a gente naturaliza a exclusão de grande parte da população.
O usufruir desses espaços, dessas questões, passa a ser um incômodo até nas próprias pessoas excluídas.Quando as pessoas passam a acessar as coisas que deveriam ser para todo mundo, gera até incômodo.
O cara está com carro, negão, aí "ih negão", aí já quer definir um lugar que o negão tem que falar assim, tem que votar assado, tem que namorar com tal mulher.
Ou seja, mas espera aí, eu já venho do mundo oprimido, cheio de privações, chego aqui onde eu supero as privações, algumas opressões, vocês vão querer me botar novas correntes, então? Acho que não.
Então, tem um povo também que está cansado um pouco disso, desse cativeiro mental, dessa narrativa cercada de regras e conceitos que mais diminui a gente do que nos libertam.
A alegria ela é elemento fundamental, a beleza, a altivez, a estética.A gente quer emancipação do corpo, da mente, do desejo também.
As pessoas na favela não se inspiram em quem está fodido, em quem está caindo, em quem está sujo, pelo contrário, mesmo na minha época de barraco, a gente tinha a roupa de sair. Essa roupa era tipo uma armadura.
E se você voltasse para casa com essa roupa suja, dona Fátima descia-lhe a ripa.
Eu era constrangido muitas vezes por não ter os símbolos da beleza, da presença, que vem através do consumo, né? Eu tinha vergonha, não vinha para o lugar porque não tinha o tênis da hora, a roupa legal.
Agora eu tenho que ser constrangido porque eu tenho uma roupa legal. Aí chamam de ostentação, o que na verdade eu considero celebração.
O Brasil não se orgulha de ser diverso? Pode ser diverso só na comida, no samba, ou quando a gente está servindo.Eu acho que a alegria é revolucionária porque a celebração das conquistas, ela é o registro de um novo tempo, de que nós entramos, chegamos, ok, queremos permanecer e queremos viver bem, tranquilos, e usufruindo.
Tem que ser diverso também no espaço de poder, no espaço de beleza, no espaço de felicidade, de alegria.
No carnaval não podemos só estar oferecendo para outros consumirem, nós também queremos consumir, pô. Por isso que o carnaval, a alegria é revolucionária.

Na prática, houve algum momento marcante em que você percebeu que expor o absurdo de uma situação foi mais eficiente para mudar uma decisão do que o confronto direto?
E quando esse método atinge o limite e a pessoa do outro lado simplesmente não se sensibiliza, o que sobra como alternativa para você?
PZ: Constrangimento pedagógico foi o nome que escolhi pro meu novo livro, aí tem um subtítulo que é "Minhas vivências com o racismo pego em flagrante".
Eu estou justamente nesse conceito de como surge o constrangimento pedagógico a primeira vez como uma explosão de ódio e raiva.
Depois, eu começo a perceber que eu posso usar isso como uma defesa para poder não ficar doido com as opressões raciais no Brasil.
Depois, eu consigo ver como isso pode aproximar pessoas para refletir sobre mudança de mentalidade.
E aí eu termino, em "Para além do constrangimento", que é o último capítulo do livro, falando sobre um mundo que não precisa mais usar o constrangimento pedagógico, porque a gente mudou a mentalidade.
E nem quero toda hora estar noiado enxergando racismo em tudo.É preciso que a gente supere, que a gente seja só gente.Eu não quero lutar para construir cadeia para prender racista, eu não quero sair na porrada na rua, eu não quero viver o tempo todo me confrontando, conflitando com as pessoas.
Então tem até um capítulo que eu falo sobre a gente estar sempre com o pretômetro ligado.
Quero descansar, quero desligar ele. Quero que Preto Zezé seja um nome próprio, por isso que eu inclusive me autobatizei de Preto Zezé no início para constranger.
Às vezes essa pergunta vem assim cheia de dedos, mas eu digo, é tipo de James Bond, Bond, James Bond, é Preto, Preto Zezé, entendeu?Você começar a falar preto, preto, preto, preto, preto. Ah, como é que te chamam? É Preto Zezé.
Até digo para um pouco distensionar a conversa, né, que tem esse elemento também, e eu acho que isso é muito nosso, de como a gente usa, como diz o Patativa do Assaré “com sorriso na boca que zomba no sofrer".
A gente tem muita essa habilidade. O humor tem uma estratégia revolucionária de diluir o ódio, de desarmar, de tornar mais palatável um assunto difícil. De tornar menos espinhosa uma conversa desconfortável.
E o constrangimento pedagógico o limite dele é achar que ele é uma regra para tudo, não é.
Ele não é uma carteirada ideológica ou, porque eu sou preto, ninguém mais vai falar sobre a questão do preto, também não é. Ele tem uns limites e os cuidados para serem tomados.
E, lógico, propondo diálogos respeitosos, fraternos, críticos.
O constrangimento pedagógico vem para trazer uma colaboração da questão racial como um ativo de país, não uma causa só dos pretos e não uma denúncia somente, mas mudança de mentalidade para ver assim:
Acho que o constrangimento pedagógico é um pouco esse cardápio de coisas para a gente trazer a conversa para esse lugar."imagina essa negrada engenheira, essa negrada na tecnologia, na IA, no hub, no cinema, na infraestrutura, seria um puta ativo, né, com a economia que a gente gera, com a inteligência que a gente já cria todo dia num país que sempre nos nega.

BV: Quando você deita a cabeça no travesseiro, depois de um dia cheio, o que é que sobra? O que te tranquiliza "ah, vou dormir em paz hoje" e o que ainda volta e meia te tira o sono?
PZ: "Cada noite é uma timeline subindo o feed. (Risos) Porque depende do dia, né?
Ontem o cronograma mudou todo, mas estou deixando a minha cabeça assim: ela traz várias coisas, mas eu não sou obrigado a responder todas.
Deitar no travesseiro agora está sendo mais tranquilo. Eu emagreci 35 quilos e é o primeiro ano em talvez 8 ou 10 anos que não estou com três dígitos de peso.
Tenho deitado e pensado muito nisso; vou fazer os meus primeiros 50 anos e quero mais 50. Como vou garantir isso? É agora.
Essas preocupações mais comigo estão vindo. Está sendo legal conviver mais com a minha mãe, com o meu filho, exercitar uma paternidade mais prazerosa e menos sacrificante.
Cuidar da cabeça também, entender por que algumas coisas se realizam e não se chatear com tanta coisa.
Ser mais disciplinado, porque a minha cabeça pensa mil fita ao mesmo tempo.
Ainda bem que apareceu esse negócio de inteligência artificial, porque vai ter a minha cabeça como um bom garimpo.
São milhões de ideias ao mesmo tempo, vou falando, falando, e lá vai se organizando. Esse negócio chegou bem na hora que eu achava que ia ficar doido.
E também trazer mais gente para perto. Eu vim do hip hop e tive que aprender a fazer tudo sozinho: produzir a festa, fazer cartaz, ser DJ, organizar o bar... Sempre tive que jogar nas 11.
Agora estou um pouco assim: deixa alguém fazer, deixa eu ficar só no que só eu faço.
É uma desgraça esse tipo de decisão porque dá ansiedade, mas você tem que se dar o direito de as coisas não serem perfeitas de primeira e irem se aperfeiçoando no processo. Estou tendo mais paciência com os processos.
Mas não ficar ali procrastinando também. Eu sempre brigo com a galera: 'esperar' é uma palavra proibida no nosso dicionário.
Corra, a emergência é nossa!
Só que a gente tem que ser mais generoso com o erro, ele é parte do processo. Não demora, começa.O mundo perfeito não vai existir. Deixa a perfeição como aquela linha de chegada que corre da gente, obrigando a gente a ir aperfeiçoando no caminho.
Pra ficar de butuca na favela
Acho que tem que ficar de olho na mulherada que está criando muita coisa e nos jovens.
As mina da MANCUDA (@mancudaoficial), marca de roupa que vai desfilar no Dragão Fashion.
O pessoal do Poço da Draga.
O Piqueno (Wilton Santos), que assumiu a presidência estadual da CUFA e também mudou a face de um bairro inteiro, fez com que hoje o Barroso seja visto de um outro jeito.
Combustível do amor
É considerada a inimiga de muitos relacionamentos. Há um tempo, era pior. Com a tecnologia, foi ficando mais fácil e barato despistá-la: ouve-se voz, vê-se a imagem, alivia que é uma beleza, embora nada supere o abraço, a mão na nuca, o beijo na boca, o cheiro no cangote. O toque, esse sim, o combustível dos amantes.
O ano era 2022 e Alanzim Coreano, que de coreano só tem o apelido, nascido e criado em Cascavel-CE, lançou aquele que seria o novo hino do Brasil.
De um Brasil que sente saudade, essa coisa maior, tão maior que a falta, e diz dela, canta, berra, para quem quiser ouvir.
A essa altura, você talvez já saiba, caro viajante, que o hino em questão é “Pega o Guanabara”, até porque Evidências é de Chitãozinho e Xororó e parte de outra premissa.
Até porque “se afastar e defender” jamais, em hipótese alguma, seria cogitado pelo sujeito saudoso. Seus verbos são outros. Até porque é bem possível que você também tenha passado por algo parecido, ou conheça alguém que…
É aqui, exatamente aqui, que entra o casal Roger e Morgana. Casados no ano passado, depois de longa temporada de idas e vindas - no sentido literal/geográfico -, eles representam a legião de corações partidos, um pedacinho em cada canto do mapa, que se viu traduzida pela música cujo refrão, fato curioso, por muito pouco não foi “pega o buzão e vem”.
Se tu me ama muda de cidade
Prova que me ama, arruma as mala e vem simbora
Pega o Guanabara e vem
Pega o Guanabara e vem”.
Ah, se fosse simples assim! Arrumar a mala, ir-se embora, ir simbora, e dar cabo da saudade de uma vez por todas. Mudar de cidade demorou a ser possibilidade.
Normalmente custa mesmo, tempo, dinheiro, outras prioridades em jogo. Roger cursava medicina na capital pernambucana, Morgana morava em Fortaleza. Eram bons amigos até o dia em que ele adia a volta ao Recife para se despedir, hm!, tem coisa aí.

Foram dois longos, beirando o interminável, anos. Ela virou freguesa das poltronas reclináveis, rotina sair de Fortaleza nas sextas para, no domingo, já estar cruzando a estrada novamente.
Voltar para casa, nessas horas, era tarefa amarga que nem jiló. O caminho inverso de quem queria mesmo era estar nos braços do xodó, mas precisava encarar a distância.
“Vivemos um amor de estudante, a gente era tão sem dinheiro que eu olhava para o leito e pensava: podia ser eu, pena que não tenho esse dinheiro porque sou estagiária”.
“Se não tivesse essa facilidade da passagem rápida, a gente não tinha se resolvido”.
A rodoviária agora é apenas cenário de passagem, não mais de despedida. Mas o mundo lá fora não parou de girar e, embora a gente consiga se ver em alta definição, o Brasil não encolheu um centímetro sequer.
Entre um emoji, uma figurinha, um meme e uma música que parece adivinhar o que se sente, milhares de casais ainda vivem a contagem regressiva, o frio da barriga do reencontro.
O Wi-Fi e os aplicativos são uma mão na roda, não se pode negar. Entretanto, retorno também eu ao ponto de partida: nada nos conecta tanto quanto o toque, a presença. O combustível dos amantes. Do amor.

O maior caldeirão cultural da América Latina, no coração do Agreste.
Localizada no Agreste do Estado, entre sete colinas (Monte Sinai, Triunfo, Columinho, Ipiranga, Antas, Magano e Quilombo) - o que garante uma atmosfera de montanha, com temperatura média anual de 21 graus, oscilando entre a mínima de 9 no inverno e a máxima de 30 no verão -, essa graça de refúgio faz do mês de julho o período ideal para um evento em que cabem Nordeste e mundo adentro, com todos os estilos culturais possíveis em 18 dias de programação. Em meio ao frio, um caldeirão intenso de grandes experiências e lembranças para a vida.

A Bon Voyage embarca nos detalhes do projeto para entender como ele se tornou destino imperdível e permanente no calendário do país há mais de três décadas.“Mais que um evento artístico, o FIG é uma experiência que transforma nossa cidade em um palco de expressões culturais de diferentes regiões do Brasil e do mundo”, situa Sandra Albino, secretária municipal de Cultura e Turismo de Garanhuns.
Desde o começo, a proposta é mesclar vários estilos, em aposta segura na representatividade cultural e valorização da produção pernambucana e nordestina. Os pontos, aliados à qualidade técnica dos participantes, ajudaram a moldar a essência do Festival como epicentro festivo.
Para se ter ideia, a edição deste ano terá ações distribuídas em mais de 20 polos a partir de linguagens como teatro, dança, circo, literatura, artes visuais, cultura popular, audiovisual e formação cultural. Entre os shows confirmados estão o de Zezo, Alcione, Adriana Calcanhotto, Luisa Sonza, Thiaguinho, Gustavo Mioto e Os Paralamas do Sucesso.
Segundo Sandra, “desde 2024, o FIG passou a ser municipalizado, realizado pela Prefeitura de Garanhuns, fortalecendo ainda mais a identidade do festival e ampliando o planejamento com antecedência, investimentos e valorização da cultura local”.

A secretária sublinha que a dimensão alcançada fez com que o Festival passasse a ser reconhecido oficialmente como manifestação da cultura nacional por meio da Lei nº 15.375, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Isso reforça ainda mais a importância histórica, cultural e simbólica do evento para Pernambuco e o Brasil”, festeja.
O que diz quem já foi
Presente desde a primeira edição do Festival, com 34 anos de história, a bibliotecária Ana Jaíra de Sousa Lira, 69, diz que o FIG mudou a dinâmica ao longo do tempo, embora sempre mirando na expansão.À lembrança, vêm sobretudo os shows dos quais participou. Ana já viu de perto nomes do porte de Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, João Bosco, Ana Carolina, Vanessa da Mata, 14 Bis, entre outros.“Ele se diversificou e ampliou as atividades para mais de 20 pólos, tornando-se, assim, o maior evento multicultural da América Latina”.
No semblante nostálgico, a alegria de ter feito parte desses instantes. “Acho que o FIG dá essa oportunidade para pessoas de várias classes conhecerem grandes nomes da música brasileira, além de impulsionar o turismo na cidade”.
Ao mesmo tempo, como moradora de Garanhuns, reconhece o poder da circulação de diferentes pessoas por meio da festa e como esse movimento impulsiona avanços.
Ana Jaíra é prova viva do que diz a sabedoria popular que ronda por aquelas bandas: quem bebe da água de Garanhuns, um dia volta. Um dia, ou sempre!“Vem muita gente desconhecida pra cá e, aqui, eles realmente têm um reconhecimento maravilhoso. O evento descobre fazedores de cultura, reconhece artistas, dá destaque e oportunidade… É emocionante e significativo”.
3 motivos
para ficar
de olho no FIG
Democratização do acesso à arte: programação gratuita do evento abre possibilidade para aproveitamento integral das atividades e, claro, conhecer gente nova. Sem falar que, devido à pluralidade da programação, dá para ir com quem você quiser – de crianças a idosos, de jovens a casais.
Grandes atrações: seja na música ou em outras linguagens, o FIG é famoso pela primorosa curadoria na hora de reunir o melhor elenco para os vários dias de festival.
Valorização da economia criativa: além de curtir os dias de festa, ainda é possível apoiar a arte feita por pessoas da própria cidade, otimizando o comércio local.
O São João não vive só de milho!
Mascomo assim a origem da maior festa do Nordeste, depois do Carnaval, pode estarligada à preservação de um alimento? Calma, vou explicar.
Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, povos indígenas já cultivavam ereverenciavam o milho como base da alimentação e da vida comunitária.
Seu cultivo carregava conhecimento sobre os ciclos da natureza, técnicas de plantio e uma profunda relação espiritual com a terra. Não por acaso, até hoje o milho atravessa séculos de tradição e permanece no centro das celebrações juninas como símbolo de fartura.
As festas de São João acontecem justamente no período em que os campos começam a devolver parte do que foi plantado.
Junho é tempo de colher milho, feijão verde, amendoim, mandioca e batata-doce. É quando a mesa se enche depois de meses de espera, cuidado e incerteza.
Talvez por isso as comidas juninas despertem tanta comoção. A pamonha enrolada na palha, o mungunzá, a canjica, o bolo de milho, o pé de moleque e os licores caseiros contam histórias sobre plantio, colheita e partilha.Comer nesse período nunca foi apenas sobrevivência: é também agradecer, celebrar e renovar esperanças.
Com o passar do tempo, as festas ligadas às colheitas se misturaram às tradições católicastrazidas pelos portugueses. Os festejos dedicados a São João, Santo Antônio e São Pedro incorporaram elementos indígenas, africanos e europeus, formando o sincretismo que hoje define o São João brasileiro.
A fogueira virou símbolo de encontro e renovação, e a dança coletiva, um ritual de comunidade. Anarriê!
Mas, existe também uma necessidade quase urgente de festejar. Depois do trabalho duro no campo, das secas e das incertezas, comer bem, beber junto e atravessar a noite em música transforma a resistência coletiva em uma das festas mais animadas do ano.
O São João, portanto, não é apenas a festa do milho. É a festa da colheita, da
abundância possível e da esperança de que a terra volte a florescer. Enquanto uma parte dos grãos alimenta a celebração, a outra é guardada para virar semente.
E talvez esteja justamente aí a beleza dessa tradição: festejar enquanto se prepara o recomeço.
1. Campina Grande – Paraíba
Manoel da Carne de Sol
@manoeldacarnedesol
2. Juazeiro do Norte – Ceará
Coisas do Sertão
@sertaocoisas
3. Recife – Pernambuco
Parraxaxá – Cozinha Típica Nordestina
@parraxaxa
Natécia pontes: entre o riso e a desordem
Onde a literatura funciona menos como invenção e mais como tentativa de compreender a vida, seus excessos, perdas e ambiguidades.
Nascida e criada em Fortaleza, a escritora se define como “um ser híbrido” e carrega também marcas dos muitos lugares por onde passou (ela estudou Radialismo no Rio de Janeiro, morou em diferentes cidades e hoje vive em São Paulo).
Ainda assim, quando olha com mais calma, percebe que a força da origem continua ali: no jeito de falar, no “uso doméstico e carinhoso do imperativo”, na forma crua e exata de enxergar os acontecimentos.
E essa é uma imagem precisa para entender sua literatura: Natércia observa sem pressa, sem desviar, sem suavizar.“Nosso olhar é como um olhar de indígena, destemido, ele rastreia o objeto observado de cima a baixo”, diz.

Ela sabe que a dor existe, mas que podemos olhar por uma outra perspectiva. “O cearense sabe fazer isso muito bem. Tudo pode ser engraçado. Quer coisa mais engraçada que um nariz, um pé, uma orelha?” Esse riso, porém, nunca serve para afastar a realidade. Em Natércia, ele costuma andar de mãos dadas com o desconforto.“Com humor você ganha superpoderes para enfrentar qualquer dificuldade”, completa.
Desde Az mulerez, primeiro livro publicado de forma independente, até Vida doçura, romance lançado este ano, Natércia vem construindo uma obra muito particular dentro da literatura contemporânea brasileira.
Em 2012, ganhou projeção nacional com Copacabana dreams, coletânea de contos finalista do Prêmio Jabuti, onde já apareciam mulheres contraditórias, humor ácido e uma narrativa atenta às zonas menos confortáveis da existência.
Depois vieram Os tais caquinhos, primeiro romance, talvez o mais autobiográfico dos seus livros, e, mais recentemente, Vida doçura, consolidando um universo literário muito próprio: íntimo, estranho, às vezes engraçado, às vezes dolorido.
Suas personagens dificilmente buscam agradar alguém. São contraditórias, difíceis, mas profundamente humanas. E isso é deliberado.
A mesma complexidade está na sua relação com a autobiografia. Embora diga que tem "muita, mas muita invenção” nos seus livros, ela assume que suas experiências pessoais atravessam o que escreve.“Não acredito em maniqueísmo na vida e sobretudo na literatura”, afirma. “A gente mente, a gente finge, a gente pragueja. Ao mesmo tempo a gente ama, a gente acolhe, a gente cuida.” É justamente nessa “área cinza entre o bom e o mau”, como ela define, que elas habitam.
O começo da vida, conta, “não foi nada fácil”, e narrar essas vivências se tornou uma maneira de compreendê-las. “Eu adoro passear nesse limite, na corda bamba dessa linha tênue entre realidade e ficção”.
Transformar experiências difíceis em literatura, para ela, é mais sobre organização do que exposição. “É a única forma que eu consigo me organizar e organizar a trajetória da minha vida.” O preço, admite com graça, às vezes vem em casa: “ninguém na minha família me lê, risos.”.
E as relações familiares seguem impondo novas camadas à escritora, agora também através da família que Natércia formou.
Entre Copacabana dreams e Vida doçura ela virou mãe e, como resume, “virar mãe é morrer e renascer”. Suas filhas têm oito anos, mas ela diz ainda estar tentando entender quem é agora.
Talvez isso também explique uma escrita cada vez mais interessada em vínculos, fragilidades e afetos. Hoje, além dos livros, ela também escreve a Coluna Torta, na revista Cult, espaço onde segue exercitando um olhar que dá zoom nas tensões e relações do mundo contemporâneo.
O mundo contemporâneo, aliás, é o que anda lhe desorganizando atualmente: “a crise climática, a ascensão da extrema-direita, as guerras, as crianças mortas e o feminicídio brasileiro, diário e atroz.".
Talvez por isso, em Vida doçura, apareça uma personagem atravessada pela solidão, pela internet e pela sensação de conexões cada vez mais frágeis. “Estamos muito mais solitários e cheios de certezas”, diz.
Ainda assim, em meio a tantas inquietações, existe algo que Natércia nunca consegue deixar de escrever sobre: “O amor.”“Tudo me parece muito estéril e superficial.”
A resposta chega simples, quase inesperada depois de tantas camadas complexas. Mas talvez esteja aí uma das chaves da sua escrita: uma conexão profunda com aquilo que ainda resiste e insiste em sobreviver, apesar de tudo.
No fim, Natércia Pontes parece escrever justamente nesse intervalo: entre o riso e a ferida, entre o Ceará e o mundo, entre a memória e a invenção, entre a desordem e a tentativa de dar forma a ela.
Não exatamente para encontrar respostas definitivas, mas para reconhecer quais ainda são possíveis.
Para organizar, pela ficção, aquilo que a vida foi deixando em aberto. Livro após livro, Natércia segue pescando palavras no ar, implicando com o mundo e escrevendo sempre acompanhada pela pergunta que lhe fascina: “o que é a vida?”, mesmo sabendo que essa resposta pode não caber em um livro, ou em vários.
Acompanhe a autora: @cindylante
Tem João no São João da Simone
Quem acompanhou em 2025 já sentiu que ela não está para brincadeira: uma produção mais incrível que a outra.
E o responsável por essa chuva de looks impecáveis é o stylist João Cordeiro, que compartilhou com a BV em primeira mão o que está criando para o figurino de Simone para os festejos de 2026.
Antes de assinar o styling da cantora, João Cordeiro já era apaixonado por moda e orgulhoso das suas raízes nordestinas.
O stylist cearense começou sua trajetória no varejo, onde descobriu cedo seu fascínio pela construção de imagem e estilo e o talento para transformar roupa em narrativa.
Hoje, há quase três anos na equipe de Simone, a "dupla” se prepara para mais um mês junho apostando na mistura entre tradição e reinvenção.

No ano passado, ele apresentou uma imagem mais ousada e fashionista, investindo em tops, saias curtas, babados e botas altas.
Para 2026, a promessa é aprofundar ainda mais esse universo: xadrez, chita, couro, franjas, chapéus e até referências às cores do Brasil, em homenagem à Copa, entram em cena para criar figurinos que misturam identidade, memória afetiva e contemporaneidade.

Entre os looks já vistos e os croquis que antecipam a nova temporada, uma certeza permanece: no São João do João e da Simone, roupa também conta história.
Agora é ficar de olho no @simonemendes e @joaocordeiros_ para acompanhar tudo!
Xadrez repaginado
O xadrez continua sendo protagonista do São João, mas em 2026 ele chega de cara nova. Sai o óbvio, entram combinações mais sofisticadas de cores, padronagens ampliadas e misturas inesperadas de estampas. O clássico junino ganha frescor através de recortes modernos, sobreposições e novas formas de styling.
Franjas e movimento
As franjas aparecem entre os elementos mais fortes da temporada. Em saias, mangas, coletes e acessórios, elas trazem movimento, leveza e personalidade às produções, reforçando referências do universo country e artesanal, dois códigos que seguem muito presentes nas festas juninas contemporâneas.
Cinturas marcadas e silhuetas femininas
A valorização da silhueta também ganha destaque. Faixas, cintos e modelagens estruturadas ajudam a marcar a cintura e trazer mais sofisticação aos looks. Ao mesmo tempo, o romantismo aparece em mangas bufantes, saias amplas e detalhes delicados que equilibram força e feminilidade.
Western fashion
O western segue firme no imaginário fashion do São João. Botas de cano alto, chapéus, couro, fivelas marcantes e referências ao estilo cowboy aparecem reinterpretados de maneira mais sofisticada e urbana. O resultado é um visual sertanejo contemporâneo, cheio de atitude.
Artesanal e identidade nordestina
Em tempos de excessos, o artesanal volta a ocupar um lugar de destaque. Rendas, bordados, crochês, tecidos naturais e detalhes feitos à mão reforçam autenticidade e ajudam a contar histórias através da roupa. Uma tendência que conversa diretamente com a riqueza cultural e estética do Nordeste.
Na fila da inovação, a vez do Ceará
Entre secas, partidas, travessias e reinvenções constantes, nosso povo desenvolveu uma habilidade rara de transformar dificuldade em movimento.
Há lugares onde a inovação nasce do excesso. Aqui, muitas vezes, ela nasce da necessidade de seguir em frente.Quando chegou a nossa hora na fila da inovação, não fomos chamados ao palco. Fomos chamados, urgentemente, à ação.
Era pandemia. O mundo inteiro ainda tentava entender o tamanho da tragédia enquanto hospitais lotavam, corredores silenciavam e respirar se tornava algo incerto.
E o Ceará não entrou nessa fila para apresentar ao mundo uma solução importada, dessas embaladas em inglês, patenteadas longe daqui e vendidas como se toda resposta precisasse vir de fora.
Entrou porque alguém precisava fazer alguma coisa. E nós fizemos.
Em terra de A Cabeça do Santo, que abriga promessas de fé, escrevemos também a história de um capacete transparente feito de plástico, armadura guardadora de tanto. Ar, tempo, esperança…
Enquanto o país contabilizava diariamente suas perdas, o Elmo diminuía essa conta. Não salvaria todos. Nenhuma tecnologia salvaria. Mas ajudou milhares de pessoas quando o mínimo - respirar - havia se tornado um privilégio.
Quem fez isso? Uma rede.
Não das de dormir, embora também saibamos muito sobre elas. Uma rede de gente. Universidade pública, universidade privada, indústria local, médicos, fisioterapeutas, pesquisadores, profissionais da saúde, técnicos, lideranças e anônimos. Pessoas dispostas a tentar antes mesmo de ter certeza.
Se de um lado faltavam materiais, do outro, sobrava improviso. Uma indústria dizia: “vem fazer aqui, a gente limpa a sala”.
Um ajustava o molde, outro refazia a peça. Outro testava novamente. E assim, quase sem perceber, um estado inteiro respirou, suspirou, aliviado. Junto.
Sem espetáculo ou excesso, porque inovação mesmo, de verdade, não é a invenção mais inédita, mirabolante ou sofisticada. É a que funciona. A que chega a tempo. A que encontra gente disposta a construir enquanto o problema ainda está acontecendo.
Acho que o Nordeste compreendeu isso cedo porque sobreviver por essas nossas bandas sempre exigiu criatividade prática.
Quem atravessa seca aprende rapidamente que ninguém vence sozinho.
Aprende a improvisar sem romantizar escassez. Aprende a transformar limitação em tração, motor. Qualquer coisa que move, tira da inércia, mesmo diante do cenário mais paralisante.Anos depois, uma pesquisadora alemã perguntaria: “como vocês conseguiram fazer isso lá?”
Eles estavam impressionados. Nós talvez estivéssemos apenas ocupados demais tentando salvar vidas com o que tínhamos: pouco, muito pouco.
Mas existe um tipo de inteligência que surge da (e na) travessia, no meio dela. Uma inteligência que não espera todas as condições ideais para começar. Apenas começa.
Foi assim que um capacete de plástico desenvolvido no Ceará se transformou em uma das maiores respostas brasileiras à pandemia.
Parafraseando mais uma vez Rachel, a gente não nasceu sabendo inovar. A gente só foi inovando e, quando percebeu, aquilo já tinha virado marca.
Talvez a maior marca coletiva que este Estado já produziu: a capacidade de reunir pessoas em torno da vida. Uma ruma de gente caçando um novo rumo.
O Elmo acabou se tornando maior do que um equipamento hospitalar. Virou símbolo de uma inteligência coletiva que dificilmente caberia inteira em uma patente, em um laboratório ou em um discurso técnico.
Existe algo bonito em escrever sobre isso em uma revista de viagem, porque toda viagem fala sobre travessia.
Durante a pandemia, enquanto milhares de pessoas cruzavam estradas tentando voltar para casa, profissionais da saúde atravessavam corredores de hospitais tentando devolver o ar a desconhecidos.Sobre seguir apesar do medo, sobre encontrar caminho mesmo quando ele ainda não está totalmente desenhado.
Em algum ponto desse caminho, uma inovação simples virou ponte entre ciência, sobrevivência e esperança.
É por essas e outras, sobretudo por essa, que eu acredito tanto no potencial do nosso estado e das nossas pessoas.
O Ceará não inovou apesar das dificuldades. Em muitos momentos, inovou porque aprendeu cedo demais que esperar nem sempre é uma opção.Às vezes, é travessia. É caminho. É viagem.E, quem sabe, toda boa viagem seja assim: primeiro vivida. Só depois contada.
O Brasil descobriu o Nordeste e João Gomes virou a trilha sonora dessa paixão
Quem não curte seu som ou tom de voz grave - se é que existe essa espécie rara -, certamente nutre alguma simpatia pelo rapaz vindo da Serrita (Pernambuco) que, mesmo tendo conquistado as alturas, mantém a simplicidade de quem anda com os pés bem rentes ao chão.
Depois do já impressionante voo solo, o cantor lançou, ao lado de Mestrinho e Jotapê, o álbum Dominguinho.
Quem foi ao show da turnê pôde morder a língua com gosto ao perceber que, ao contrário do que diz o ditado, nem toda unanimidade é burra.
Duvido que não haja alguma inteligência em alcançar tamanho feito. Em ser agente da alegria e da comunhão.
Essa talvez seja a maior recompensa a tanto trabalho. Grava, ensaia, faz show, pega a estrada. Repete. Repete. Repete.

Decisão arriscada para sua imagem até então intacta de qualquer arranhão, mas a gravidez também era de risco. Grande era o amor e o compromisso com a parceira.
Amor que o Brasil inteiro acompanhou vidrado, como se fosse novela, o ir e o vir até o casamento, um festão no Instituto Brennand, no ano de 2025.

União que recentemente cruzou o oceano, com Ary o acompanhando até Portugal para um show histórico: uma quadrilha junina além-mar para ninguém, em lugar nenhum do mundo, botar defeito.
O fenômeno do São João e o fenômeno João são mesmo gigantes. Mais do que brasilidade, estampam “nordestinidade”.
Falam de uma região que não se encolhe, nem sem encabula; ao contrário, se orgulha de seu jeito e sotaque, o que, em um mercado cada vez mais interessado em autenticidade, o diferencia e transborda dos palcos para outros espaços, como o flerte mais recente com o universo da moda.
Nascida na orla da Zona Sul do Rio de Janeiro e historicamente associada ao estilo de vida carioca, a Reserva escolheu o São João como cenário de sua campanha de Dia dos Namorados, colocando João Gomes e Ary Mirelle como protagonistas.
A escolha não parece casual. Ao unir uma das maiores datas do varejo nacional à principal festa popular do Nordeste, a marca reconhece a relevância que a cultura nordestina passou a ocupar no imaginário brasileiro.
Mais do que uma campanha publicitária, o movimento funciona como um retrato de uma mudança cultural em curso.
Ao aparecer pela primeira vez em campanha ao lado da esposa, o cantor reforça valores que ajudam a explicar sua enorme popularidade: família, simplicidade e conexão com suas raízes.
A identificação do público, especialmente entre os mais jovens, chama atenção. Em uma era dominada por redes sociais e tendências globais, cresce o interesse por histórias reais e referências que transmitam proximidade.
João e Ary representam um Brasil distante dos filtros excessivos e mais próximo da vida cotidiana de milhões de pessoas.
O São João, por sua vez, oferece o cenário perfeito, mistura cor, festa, gente, romance… tem forró, dança, fogueira, reza, e até barraca do beijo! É a festa dos encontros, da memória afetiva, da música, da comunidade e do pertencimento. É a festa do Brasil.
Do Brasil que sempre conheceu o Nordeste e que agora, só agora, começa a enxergar a região não apenas como destino turístico, mas como fonte de inspiração cultural para o restante do País.
No meio disso tudo, desses todos, João Gomes se tornou uma espécie de trilha sonora: um artista que levou o sertão pernambucano para o centro da cultura brasileira sem jamais deixar de ser quem é.
Vini Jr. e Havaianas: o match que traduz o Brasil contemporâneo
Hoje, as marcas procuram algo mais valioso: personagens que representem de forma genuína aquilo que elas são. A parceria entre Vini Jr. e Havaianas é um exemplo claro desse movimento.
De um lado, um dos brasileiros mais influentes do mundo, cuja trajetória ultrapassa o futebol para torná-lo símbolo de rep resentatividade e orgulho das origens.
Do outro, uma legítima marca nacional, que há décadas transformou um produto simples em um dos maiores ícones da moda e da cultura brasileira.
Uma colaboração que compartilha autenticidade, popularidade e alcance internacional, mas com uma forte conexão com as raízes.
Juntos, eles representam uma imagem contemporânea do Brasil: diversa, confiante, criativa.
Golaço! E essa é uma narrativa que tem ganhado cada vez mais espaço no marketing global: em um cenário em que os consumidores estão valorizando identificação e propósito, campanhas se tornam mais relevantes quando existe coerência entre imagens e mensagem - quem fala e o que está sendo dito.
Oatualmente cunhado “pertencimento”. A força de um "match perfeito” vai além do produto, ela mostra como a identidade cultural se tornou um dos ativos mais poderosos das marcas.Não basta só ter visibilidade, hoje é preciso gerar reconhecimento.
E reforça uma tendência que deve continuar moldando a comunicação nos próximos anos: as conexões mais impactantes acontecem quando a história da marca encontra, de forma natural, a história de quem a representa.

