
Essa vida, apesar de sofrida - não apenas, mas também sofrida - o ensinou a resistir, empreender e inovar, nem que fosse como estratégia de sobrevivência.
Essa vida, passada e ainda tão viva, é que lhe dá mapas para lidar com o presente e sonhar com um futuro melhor.
Pela primeira vez delegando um pouco, seja para inteligência artificial ou ancestral, por meio da troca com gente sabida a sua volta, Preto sonha (e age) por um Brasil capaz de criar saídas brasileiras para desafios brasileiros, de plugar e conectar talentos.
Um tempo outro, onde as conquistas possam ser celebradas - e para todos -, onde haja emancipação do corpo, da mente e, sobretudo, do desejo.
Onde gente preta possa ser vista, incluída, respeitada. Circular, criar, consumir, ascender sem a necessidade de constranger ou militar, por não estar sozinha. Onde gente preta possa ser “só” isso mesmo, gente.
Pela primeira vez pesando menos de três dígitos, curte a paternidade com mais prazer do que sacrifício e vem encontrando, entre cpf e cnpj, entre alegria e luta, o equilíbrio.

Preto Zezé: A gente vive hoje um momento que as pessoas falam muito de empreendedorismo, inovação...
A gente tem que produzir soluções todos os dias, e eu sou muito resultado disso.Acontece que na favela a gente empreende e inova por necessidade de sobrevivência.
Quando eu ganho prêmio ou sou reconhecido pelo trabalho da CUFA, para esses eventos, as pessoas sempre citam uma trajetória muito de privações, de sofrimento, de injustiças.
E aí vem esse discurso de "você chegou lá", então, eu sempre aproveito esses momentos para fazer uma provocação.
Porque da minha geração éramos 30, deve ter sobrado umas cinco, quatro pessoas. Faço a seguinte pergunta: ao invés da gente colocar essa trajetória como algo grande, de superação, e a chegada em algum lugar, a gente se perguntasse:
Se com essa lógica toda de privações, de injustiça, de desperdício de inteligência, de potência, o Zezé chegou lá, imagina quantos desses não estão por aí que não estão tendo a chance ou a sorte que eu tive!mas se o país não fosse esse pavilhão de liquidação de inteligência, de talentos, se ele fosse um lugar de oportunidades, de riqueza dividida, de chances compartilhadas, quantos Preto Zezé a gente não ia ter?
Uso sempre esses momentos, essa trilha reconhecida pelas pessoas, para fazer essa reflexão, virar a câmera para o outro lado do filme.

BV: Falando um pouquinho aqui de Fortaleza, qual é o cheiro ou som da tua infância que quando surge, te lembra de quem você é e não quer deixar de ser, a despeito do cargo que ocupa?
PZ: As memórias e os cheiros que tenho de Fortaleza são de uma cidade que me educou e me deu resiliência.
Lembro do cheiro da comida que a dona Fátima fazia de madrugada para não ficarmos com fome no estacionamento, e da terra molhada nas ruas da Quadra quando chovia.
A gente brincava de pião e de peixe, uma brincadeira de ferreiro onde enterrávamos casca de laranja.
Hoje não tem mais rua de terra nas favelas, tudo foi urbanizado e asfaltado. Logo, também não tem mais pé de manga, de caju ou de jambo, nem aquele corre-corre de criança descalça na rua.
Sinto muita saudade desse tempo em que tinha mais sombra, mais vento e água limpa para beber.
Nem tudo era pelo dinheiro; a gente não precisava pagar por cada deslocamento como hoje. Por incrível que pareça, mesmo naquele contexto injusto e excludente, tínhamos muito mais vitalidade.
Estamos caminhando para um mundo tão tecnológico, com inteligência artificial, que ser humano e ter vitalidade vai ser a grande riqueza.
De vez em quando, quando visito um bairro com uma dinâmica mais popular, as pessoas se surpreendem. Um dia, eu estava sentado no chão em uma favela e me perguntaram: “Você senta no chão?”.
Existe esse estranhamento porque hoje sou uma pessoa de visibilidade, mas eu respondo: “cara, eu vim daqui, vim de ruas de terra iguais a essa”. Sou filho desse lugar, dos barracos de madeira e das ruas sem luz.
Quanto mais ocupamos espaços de visibilidade e subimos nessa escala de ascensão e contatos, mais o mundo tenta nos puxar para longe do nosso chão.Essa é a minha origem e mantê-la viva é uma forma de não me perder.
Essas memórias são as minhas âncoras para nunca perder a gravidade e não ser arrastado por esse mundo tão rápido, tão dinâmico.

BV: Imagino que a diplomacia da favela deva exigir um equilíbrio emocional absurdo.
Em que momentos o Preto Zezé “institucional” precisa silenciar o Preto Zezé ativista para que a agenda avance? E como você lida com esse conflito interno?
PZ: A vida de um líder ativista é difícil. Quem está de fora não sabe como é solitário estar em lugares onde nunca há ninguém como nós, às vezes nem em posições de serviço, de tão distante que é esse Brasil.
O meu próximo livro traz um capítulo chamado 'As lições e os aprendizados da solidão no topo'. O topo traz fama, visibilidade e contatos, que são o maior ativo, mas é isolado.
Enquanto você está na invisibilidade do sofrimento, há solidariedade na tragédia. Mas quando você chega no topo, parte torce pelo seu erro e outra parte te cobra coisas sem nunca ter colaborado com nada.
Passamos a ser mais cobrados que o prefeito, o governador ou o presidente. Eu já chego nesses espaços todo ferido, cheio de cicatrizes, e ainda preciso dar conta de segurar toda essa responsabilidade? Não dá.
Minha forma de continuar humano é renunciar a esse peso. Respiro e pego um tempo para o meu CPF.Hoje, sexta-feira, decidi deixar o José na escola conversando com ele sobre o futuro, dar uma caminhada na praia, buscá-lo para comprar um tênis novo porque o bicho está crescendo rápido.
Mais tarde vou namorar, ir ao cinema, ler ou escrever, cuidar um pouco do meu novo livro... Me dou o direito de viver.
É o equilíbrio necessário para não enlouquecer, porque as demandas são diárias. Se você não responde uma mensagem, vira a pior pessoa do mundo da noite para o dia. A lida é muito tensa.
Tento ficar em paz com minhas fraquezas e não me sentir tão pressionado. Eu choro, fico triste e, às vezes, só quero ficar sozinho, o que não é ser antissocial, é um direito de qualquer um.

Às vezes a gente não dorme à noite se cobrando para ser um bom pai, um bom companheiro, um bom profissional e um bom líder, sendo injusto com a gente mesmo.
Quando a pressão aperta, eu olho para trás e penso "eu já estive no tempo mais difícil e tinha mais resposta, deixa eu voltar um pouco lá para o tempo difícil e pensar como é que eu faria”.
Muitas vezes, o passado me dá mapas para eu sobreviver no presente e sonhar com um futuro melhor.
Para você, que também trabalha com entretenimento, com cultura, em que medida a música e a celebração na favela são ferramentas políticas de fato?
A alegria consegue ser um espaço de cura para quem apanha do sistema todo dia ou corre o risco de ser uma anestesia?
PZ: O Luiz Antônio Simas eu costumo chamar ele de o filósofo de boteco e o bruxo das esquinas.
Professor das ruas, porque eu gosto muito do que ele do que ele como ele situa o que acontece no mundo não formal, no mundo não escrito, no mundo não dito, ou até mesmo no mundo material, porque ele consegue decodificar as simbologias, as leituras, os símbolos espirituais, sensoriais, extraterrenos, e conectar isso com a vida, com a realização, com o fazer, com o encontro.

Não é só você empurrar o carro, é você ser o palco, é você ser a beleza, é você ser o criativo, acho muito massa. Sou fã dele.
Mas, assim, voltando aqui para a pergunta, a alegria é revolucionária. Nós já passamos anos e anos na fase da inclusão, agora o cara incluído quer ir além.
O moleque que foi incluído e pegou os programas sociais, ele quer criar a marca de roupa dele, cara.
A menina que se sentiu bonita e deixou o cabelo black dela crescer e não alisa mais porque se sente uma negra altiva, bonita, ela quer montar a marca dela, ela quer montar o seu estúdio de maquiagem, quer montar o seu salão de beleza, ela quer ser dona de uma marca, como a Boca Rosa foi, ou quer montar uma marca de roupa como o Lab Fantasma montou, do Emicida.
Então, as pessoas querem uma consolidação para poder usufruir dos benefícios conquistados.
E eu acho que, às vezes, as pessoas não entendem isso, porque é um país de novo, 388 anos que a gente naturaliza a exclusão de grande parte da população.
O usufruir desses espaços, dessas questões, passa a ser um incômodo até nas próprias pessoas excluídas.Quando as pessoas passam a acessar as coisas que deveriam ser para todo mundo, gera até incômodo.
O cara está com carro, negão, aí "ih negão", aí já quer definir um lugar que o negão tem que falar assim, tem que votar assado, tem que namorar com tal mulher.
Ou seja, mas espera aí, eu já venho do mundo oprimido, cheio de privações, chego aqui onde eu supero as privações, algumas opressões, vocês vão querer me botar novas correntes, então? Acho que não.
Então, tem um povo também que está cansado um pouco disso, desse cativeiro mental, dessa narrativa cercada de regras e conceitos que mais diminui a gente do que nos libertam.
A alegria ela é elemento fundamental, a beleza, a altivez, a estética.A gente quer emancipação do corpo, da mente, do desejo também.
As pessoas na favela não se inspiram em quem está fodido, em quem está caindo, em quem está sujo, pelo contrário, mesmo na minha época de barraco, a gente tinha a roupa de sair. Essa roupa era tipo uma armadura.
E se você voltasse para casa com essa roupa suja, dona Fátima descia-lhe a ripa.
Eu era constrangido muitas vezes por não ter os símbolos da beleza, da presença, que vem através do consumo, né? Eu tinha vergonha, não vinha para o lugar porque não tinha o tênis da hora, a roupa legal.
Agora eu tenho que ser constrangido porque eu tenho uma roupa legal. Aí chamam de ostentação, o que na verdade eu considero celebração.
O Brasil não se orgulha de ser diverso? Pode ser diverso só na comida, no samba, ou quando a gente está servindo.Eu acho que a alegria é revolucionária porque a celebração das conquistas, ela é o registro de um novo tempo, de que nós entramos, chegamos, ok, queremos permanecer e queremos viver bem, tranquilos, e usufruindo.
Tem que ser diverso também no espaço de poder, no espaço de beleza, no espaço de felicidade, de alegria.
No carnaval não podemos só estar oferecendo para outros consumirem, nós também queremos consumir, pô. Por isso que o carnaval, a alegria é revolucionária.

Na prática, houve algum momento marcante em que você percebeu que expor o absurdo de uma situação foi mais eficiente para mudar uma decisão do que o confronto direto?
E quando esse método atinge o limite e a pessoa do outro lado simplesmente não se sensibiliza, o que sobra como alternativa para você?
PZ: Constrangimento pedagógico foi o nome que escolhi pro meu novo livro, aí tem um subtítulo que é "Minhas vivências com o racismo pego em flagrante".
Eu estou justamente nesse conceito de como surge o constrangimento pedagógico a primeira vez como uma explosão de ódio e raiva.
Depois, eu começo a perceber que eu posso usar isso como uma defesa para poder não ficar doido com as opressões raciais no Brasil.
Depois, eu consigo ver como isso pode aproximar pessoas para refletir sobre mudança de mentalidade.
E aí eu termino, em "Para além do constrangimento", que é o último capítulo do livro, falando sobre um mundo que não precisa mais usar o constrangimento pedagógico, porque a gente mudou a mentalidade.
E nem quero toda hora estar noiado enxergando racismo em tudo.É preciso que a gente supere, que a gente seja só gente.Eu não quero lutar para construir cadeia para prender racista, eu não quero sair na porrada na rua, eu não quero viver o tempo todo me confrontando, conflitando com as pessoas.
Então tem até um capítulo que eu falo sobre a gente estar sempre com o pretômetro ligado.
Quero descansar, quero desligar ele. Quero que Preto Zezé seja um nome próprio, por isso que eu inclusive me autobatizei de Preto Zezé no início para constranger.
Às vezes essa pergunta vem assim cheia de dedos, mas eu digo, é tipo de James Bond, Bond, James Bond, é Preto, Preto Zezé, entendeu?Você começar a falar preto, preto, preto, preto, preto. Ah, como é que te chamam? É Preto Zezé.
Até digo para um pouco distensionar a conversa, né, que tem esse elemento também, e eu acho que isso é muito nosso, de como a gente usa, como diz o Patativa do Assaré “com sorriso na boca que zomba no sofrer".
A gente tem muita essa habilidade. O humor tem uma estratégia revolucionária de diluir o ódio, de desarmar, de tornar mais palatável um assunto difícil. De tornar menos espinhosa uma conversa desconfortável.
E o constrangimento pedagógico o limite dele é achar que ele é uma regra para tudo, não é.
Ele não é uma carteirada ideológica ou, porque eu sou preto, ninguém mais vai falar sobre a questão do preto, também não é. Ele tem uns limites e os cuidados para serem tomados.
E, lógico, propondo diálogos respeitosos, fraternos, críticos.
O constrangimento pedagógico vem para trazer uma colaboração da questão racial como um ativo de país, não uma causa só dos pretos e não uma denúncia somente, mas mudança de mentalidade para ver assim:
Acho que o constrangimento pedagógico é um pouco esse cardápio de coisas para a gente trazer a conversa para esse lugar."imagina essa negrada engenheira, essa negrada na tecnologia, na IA, no hub, no cinema, na infraestrutura, seria um puta ativo, né, com a economia que a gente gera, com a inteligência que a gente já cria todo dia num país que sempre nos nega.

BV: Quando você deita a cabeça no travesseiro, depois de um dia cheio, o que é que sobra? O que te tranquiliza "ah, vou dormir em paz hoje" e o que ainda volta e meia te tira o sono?
PZ: "Cada noite é uma timeline subindo o feed. (Risos) Porque depende do dia, né?
Ontem o cronograma mudou todo, mas estou deixando a minha cabeça assim: ela traz várias coisas, mas eu não sou obrigado a responder todas.
Deitar no travesseiro agora está sendo mais tranquilo. Eu emagreci 35 quilos e é o primeiro ano em talvez 8 ou 10 anos que não estou com três dígitos de peso.
Tenho deitado e pensado muito nisso; vou fazer os meus primeiros 50 anos e quero mais 50. Como vou garantir isso? É agora.
Essas preocupações mais comigo estão vindo. Está sendo legal conviver mais com a minha mãe, com o meu filho, exercitar uma paternidade mais prazerosa e menos sacrificante.
Cuidar da cabeça também, entender por que algumas coisas se realizam e não se chatear com tanta coisa.
Ser mais disciplinado, porque a minha cabeça pensa mil fita ao mesmo tempo.
Ainda bem que apareceu esse negócio de inteligência artificial, porque vai ter a minha cabeça como um bom garimpo.
São milhões de ideias ao mesmo tempo, vou falando, falando, e lá vai se organizando. Esse negócio chegou bem na hora que eu achava que ia ficar doido.
E também trazer mais gente para perto. Eu vim do hip hop e tive que aprender a fazer tudo sozinho: produzir a festa, fazer cartaz, ser DJ, organizar o bar... Sempre tive que jogar nas 11.
Agora estou um pouco assim: deixa alguém fazer, deixa eu ficar só no que só eu faço.
É uma desgraça esse tipo de decisão porque dá ansiedade, mas você tem que se dar o direito de as coisas não serem perfeitas de primeira e irem se aperfeiçoando no processo. Estou tendo mais paciência com os processos.
Mas não ficar ali procrastinando também. Eu sempre brigo com a galera: 'esperar' é uma palavra proibida no nosso dicionário.
Corra, a emergência é nossa!
Só que a gente tem que ser mais generoso com o erro, ele é parte do processo. Não demora, começa.O mundo perfeito não vai existir. Deixa a perfeição como aquela linha de chegada que corre da gente, obrigando a gente a ir aperfeiçoando no caminho.
Pra ficar de butuca na favela
Acho que tem que ficar de olho na mulherada que está criando muita coisa e nos jovens.
As mina da MANCUDA (@mancudaoficial), marca de roupa que vai desfilar no Dragão Fashion.
O pessoal do Poço da Draga.
O Piqueno (Wilton Santos), que assumiu a presidência estadual da CUFA e também mudou a face de um bairro inteiro, fez com que hoje o Barroso seja visto de um outro jeito.
