Preloader

Solange Almeida de corpo, alma e coração no São João

Madura, segura da própria identidade e profundamente conectada às raízes nordestinas, Solange Almeida vive o São João como pertencimento, responsabilidade e amor: pela música, pela cultura e pela sua origem.
Imagens: Tainá Bernard / Divulgação
Tempo de leitura: 6 minutos
O São João, para mim, tem cheiro de milho assado e fogueira acesa na porta de casa. Tem gosto da canjica que minha mãe fazia ralando milho, ralando coco, tudo com muito carinho.

Tem som de sanfona e lembrança das festas juninas de Alagoinhas. A felicidade era estar ali, na calçada, perto da fogueira, usando as roupas de chita que minha mãe mandava fazer para mim. Acho que é por isso que junho me emociona tanto.
 


Junho mexe diferente com Solange Almeida. Mais do que agenda cheia, maratona de shows ou rotina exaustiva, o mês funciona como reencontro: com a memória, com as raízes e com uma parte muito íntima de si mesma.

No São João, eu me sinto pertencendo à minha essência”, resume. Entre palcos, figurinos, multidões e quilômetros de estrada, existe uma Solange ainda profundamente conectada à menina nordestina criada entre fogueira, sanfona, família e afeto.

Essa relação com o São João também ganhou forma no Sol João, projeto criado durante a pandemia como uma maneira de manter viva a essência das festas juninas e da identidade nordestina.





​Em junho, ele ganha ainda mais força, quase como extensão natural desse pertencimento.

“O Nordeste merece ser celebrado sem perder a sua essência”, defende. E é esse sentimento que faz Solange subir ao palco sabendo que representa algo maior: “Estou representando muito mais do que a mim mesma.”

Talvez seja justamente essa conexão com a própria essência que também explique a mulher que Solange se tornou.

Depois de décadas de carreira, ela parece viver um momento mais seguro da própria identidade, menos movido pela necessidade de provar força e mais pela tranquilidade de quem já entendeu o próprio valor.

“Não preciso competir nem convencer ninguém da minha história, a minha trajetória fala por mim”, diz.

Imagem relacionada a Solange Almeida
“A trajetória de Solange Almeida é marcada por reinvenção, talento e protagonismo na música brasileira.”

Com o tempo, aprendeu a trocar urgência por paz, ruído por intuição e aprovação por segurança.

“A beleza mais forte que eu carrego é a segurança de saber o meu próprio valor.”


​Essa maturidade atravessa também a mãe, a mulher Solange. Rafa, o filho que hoje segue um caminho próximo ao seu na música, desperta nela um equilíbrio entre alertar e deixar viver.
 

“Existe a vontade de proteger, porque eu conheço as dores e os desafios. Mas também existe o entendimento de que cada pessoa precisa viver a própria experiência e descobrir a sua própria voz.

Entre memória, pertencimento, maternidade e São João, Solange conversa com a Bon Voyage sobre raízes, carreira e tudo aquilo que a conecta, de corpo, alma e coração, ao Nordeste.
 
“Entre palcos lotados e novos projetos, Solange Almeida mantém uma trajetória construída com talento e conexão com o público.”
BV: Existe uma Solange que só aparece no São João? O que essa época do ano desperta em você como mulher, artista e nordestina?

Solange: Existe, sim, uma Solange diferente. O São João desperta uma Solange muito emocional, muito conectada com minhas raízes.
 

Junho mexe comigo de um jeito diferente porque remete ao meu passado, tem cheiro de infância, tem cheiro de família, é uma memória afetiva muito grande.

Como artista, é a época do ano em que mais me sinto pertencendo à minha essência. E, como nordestina, é impossível não sentir orgulho dessa cultura tão forte que pulsa no peito. Eu gosto de me caracterizar, de viver isso intensamente. É uma época em que me entrego de corpo e alma.
 
BV: Para muita gente, o São João é festa. Para você, ele também é trabalho, responsabilidade, maratona, emoção. Como é viver junho hoje, no corpo, na cabeça e no coração?

Solange: Junho hoje é intensidade pura. É um misto de exaustão física com emoção o tempo inteiro, porque a gente faz no mínimo um, no máximo três shows por semana, já cheguei a fazer quatro.

O corpo sente, a cabeça acelera, mas o coração fica cheio de amor. Cada cidade, cada público, cada pessoa cantando junto me lembra o motivo de eu ter escolhido viver isso, de ser cantora. É cansativo, mas é um cansaço que alimenta minha alma e me impulsiona a ser melhor a cada ano.
BV: Existe algo no Nordeste que você acha impossível traduzir para quem não nasceu aqui?

Solange:  Eu acho impossível traduzir completamente esse sentimento de pertencimento que existe no Nordeste.

O nordestino tem um poder de transformar dor em força, saudade em música e dificuldade em acolhimento. Existe uma emoção na nossa cultura que não cabe explicação. Acho que só quem vive entende. Só sabe vivendo.
 

BV: Você ocupar hoje um lugar de quem ajuda a manter e proteger o forró dentro dessa transformação cultural. Você sente esse peso ou essa responsabilidade?

Solange:  Eu sinto muito amor por essa responsabilidade, porque o forró faz parte da minha identidade, da minha história e da minha relação com o Nordeste.

Quando subo num palco, sinto que estou representando muito mais do que a mim mesma.

Existe um compromisso com essa cultura, com os artistas que vieram antes e com os que ainda virão. E eu acredito que vem uma boa safra para dar continuidade a isso tudo.
 

 
BV: Em um momento em que tudo parece muito rápido e descartável, como se permanece relevante sem perder a essência?

Solange:  Eu acho que permanecer relevante hoje exige autenticidade, porque o público percebe quando existe verdade.
 

Nunca tentei ser outra pessoa para acompanhar tendência.

Claro que a gente evolui, se atualiza, experimenta coisas novas, como eu experimentei, mas sem abandonar a essência. E eu acho que é isso que permanece.
 
BV: Você parece estar num momento muito seguro da própria identidade. O que a Solange de hoje já não sente mais necessidade de provar?

Solange:  A Solange de hoje não sente mais necessidade de provar força o tempo inteiro. Durante muitos anos, precisei mostrar que merecia estar ali, que dava conta, que era capaz de sustentar meu espaço dentro da música e da vida.
 

Hoje, eu entendi quem sou. Não preciso competir nem convencer ninguém da minha história - a minha trajetória fala por mim.

BV: Existe uma liberdade que só chega com a maturidade? O que o passar do tempo te ensinou sobre ser mulher, ser mãe, profissional?
 

Existe uma liberdade que só a maturidade traz. O tempo me ensinou que ser mulher também é se permitir viver sem carregar tantas culpas.

Como mãe, aprendi que o amor é presença de alma, mesmo quando a estrada me afasta fisicamente dos meus filhos.

Como profissional, entendi que disciplina e verdade valem mais do que qualquer coisa. E, como mulher, aprendi a me escolher cada vez mais.
 
BV: Depois de tantos anos conciliando palco e maternidade, o que você gostaria que seus filhos aprendessem observando sua trajetória?

Solange: Eu quero que eles entendam que dignidade, coragem e honestidade valem mais do que qualquer fama.

Que sucesso de verdade não é só aplauso: é caráter, respeito pelas pessoas, é não esquecer de onde se veio e nunca puxar o tapete de ninguém.
BV: Quem é a Solange quando as luzes se apagam?

Solange:  Quando as luzes se apagam, existe uma Solange ainda mais simples. Muito família, muito humana, muito amiga.

Uma mulher que também sente medo, que tem vulnerabilidades, sente saudade, insegurança, mas que nunca perdeu a fé.
 

No fim de tudo, eu sou alguém movida pelo amor, pela música e pela gratidão pela história que construí.


Victória Costa
Cearense de Aracati, Victória Costa se formou em jornalismo, fez moda, estagiou em jornal, foi produtora de TV e editora-chefe de revista em Fortaleza – até se mudar pra São Paulo há oito anos e por lá descobrir o branding. Hoje, desenvolve e lidera projetos de marca, da plataforma à comunicação, da investigação à criação. Na Bon Voyage, ela embarcou numa viagem nostálgica, relembrando a adrenalina e o prazer de fazer um bom impresso.
Ler próxima matéria