Tem som de sanfona e lembrança das festas juninas de Alagoinhas. A felicidade era estar ali, na calçada, perto da fogueira, usando as roupas de chita que minha mãe mandava fazer para mim. Acho que é por isso que junho me emociona tanto.
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Junho mexe diferente com Solange Almeida. Mais do que agenda cheia, maratona de shows ou rotina exaustiva, o mês funciona como reencontro: com a memória, com as raízes e com uma parte muito íntima de si mesma.
“No São João, eu me sinto pertencendo à minha essência”, resume. Entre palcos, figurinos, multidões e quilômetros de estrada, existe uma Solange ainda profundamente conectada à menina nordestina criada entre fogueira, sanfona, família e afeto.
Essa relação com o São João também ganhou forma no Sol João, projeto criado durante a pandemia como uma maneira de manter viva a essência das festas juninas e da identidade nordestina.
Em junho, ele ganha ainda mais força, quase como extensão natural desse pertencimento.
Talvez seja justamente essa conexão com a própria essência que também explique a mulher que Solange se tornou.“O Nordeste merece ser celebrado sem perder a sua essência”, defende. E é esse sentimento que faz Solange subir ao palco sabendo que representa algo maior: “Estou representando muito mais do que a mim mesma.”
Depois de décadas de carreira, ela parece viver um momento mais seguro da própria identidade, menos movido pela necessidade de provar força e mais pela tranquilidade de quem já entendeu o próprio valor.
“Não preciso competir nem convencer ninguém da minha história, a minha trajetória fala por mim”, diz.
Com o tempo, aprendeu a trocar urgência por paz, ruído por intuição e aprovação por segurança.
“A beleza mais forte que eu carrego é a segurança de saber o meu próprio valor.”

“Existe a vontade de proteger, porque eu conheço as dores e os desafios. Mas também existe o entendimento de que cada pessoa precisa viver a própria experiência e descobrir a sua própria voz.”
Entre memória, pertencimento, maternidade e São João, Solange conversa com a Bon Voyage sobre raízes, carreira e tudo aquilo que a conecta, de corpo, alma e coração, ao Nordeste.
Solange: Existe, sim, uma Solange diferente. O São João desperta uma Solange muito emocional, muito conectada com minhas raízes.
Junho mexe comigo de um jeito diferente porque remete ao meu passado, tem cheiro de infância, tem cheiro de família, é uma memória afetiva muito grande.
Como artista, é a época do ano em que mais me sinto pertencendo à minha essência. E, como nordestina, é impossível não sentir orgulho dessa cultura tão forte que pulsa no peito. Eu gosto de me caracterizar, de viver isso intensamente. É uma época em que me entrego de corpo e alma.Solange: Junho hoje é intensidade pura. É um misto de exaustão física com emoção o tempo inteiro, porque a gente faz no mínimo um, no máximo três shows por semana, já cheguei a fazer quatro.
O corpo sente, a cabeça acelera, mas o coração fica cheio de amor. Cada cidade, cada público, cada pessoa cantando junto me lembra o motivo de eu ter escolhido viver isso, de ser cantora. É cansativo, mas é um cansaço que alimenta minha alma e me impulsiona a ser melhor a cada ano.
Solange: Eu acho impossível traduzir completamente esse sentimento de pertencimento que existe no Nordeste.
O nordestino tem um poder de transformar dor em força, saudade em música e dificuldade em acolhimento. Existe uma emoção na nossa cultura que não cabe explicação. Acho que só quem vive entende. Só sabe vivendo.
Solange: Eu sinto muito amor por essa responsabilidade, porque o forró faz parte da minha identidade, da minha história e da minha relação com o Nordeste.
Existe um compromisso com essa cultura, com os artistas que vieram antes e com os que ainda virão. E eu acredito que vem uma boa safra para dar continuidade a isso tudo.Quando subo num palco, sinto que estou representando muito mais do que a mim mesma.

Solange: Eu acho que permanecer relevante hoje exige autenticidade, porque o público percebe quando existe verdade.
Claro que a gente evolui, se atualiza, experimenta coisas novas, como eu experimentei, mas sem abandonar a essência. E eu acho que é isso que permanece.Nunca tentei ser outra pessoa para acompanhar tendência.
Solange: A Solange de hoje não sente mais necessidade de provar força o tempo inteiro. Durante muitos anos, precisei mostrar que merecia estar ali, que dava conta, que era capaz de sustentar meu espaço dentro da música e da vida.
Hoje, eu entendi quem sou. Não preciso competir nem convencer ninguém da minha história - a minha trajetória fala por mim.
Como mãe, aprendi que o amor é presença de alma, mesmo quando a estrada me afasta fisicamente dos meus filhos.Existe uma liberdade que só a maturidade traz. O tempo me ensinou que ser mulher também é se permitir viver sem carregar tantas culpas.
Como profissional, entendi que disciplina e verdade valem mais do que qualquer coisa. E, como mulher, aprendi a me escolher cada vez mais.
Solange: Eu quero que eles entendam que dignidade, coragem e honestidade valem mais do que qualquer fama.
Que sucesso de verdade não é só aplauso: é caráter, respeito pelas pessoas, é não esquecer de onde se veio e nunca puxar o tapete de ninguém.
Solange: Quando as luzes se apagam, existe uma Solange ainda mais simples. Muito família, muito humana, muito amiga.
Uma mulher que também sente medo, que tem vulnerabilidades, sente saudade, insegurança, mas que nunca perdeu a fé.
No fim de tudo, eu sou alguém movida pelo amor, pela música e pela gratidão pela história que construí.

