É considerada a inimiga de muitos relacionamentos. Há um tempo, era pior. Com a tecnologia, foi ficando mais fácil e barato despistá-la: ouve-se voz, vê-se a imagem, alivia que é uma beleza, embora nada supere o abraço, a mão na nuca, o beijo na boca, o cheiro no cangote. O toque, esse sim, o combustível dos amantes.
O ano era 2022 e Alanzim Coreano, que de coreano só tem o apelido, nascido e criado em Cascavel-CE, lançou aquele que seria o novo hino do Brasil.
De um Brasil que sente saudade, essa coisa maior, tão maior que a falta, e diz dela, canta, berra, para quem quiser ouvir.
A essa altura, você talvez já saiba, caro viajante, que o hino em questão é “Pega o Guanabara”, até porque Evidências é de Chitãozinho e Xororó e parte de outra premissa.
Até porque “se afastar e defender” jamais, em hipótese alguma, seria cogitado pelo sujeito saudoso. Seus verbos são outros. Até porque é bem possível que você também tenha passado por algo parecido, ou conheça alguém que…
É aqui, exatamente aqui, que entra o casal Roger e Morgana. Casados no ano passado, depois de longa temporada de idas e vindas - no sentido literal/geográfico -, eles representam a legião de corações partidos, um pedacinho em cada canto do mapa, que se viu traduzida pela música cujo refrão, fato curioso, por muito pouco não foi “pega o buzão e vem”.
Se tu me ama muda de cidade
Prova que me ama, arruma as mala e vem simbora
Pega o Guanabara e vem
Pega o Guanabara e vem”.
Ah, se fosse simples assim! Arrumar a mala, ir-se embora, ir simbora, e dar cabo da saudade de uma vez por todas. Mudar de cidade demorou a ser possibilidade.
Normalmente custa mesmo, tempo, dinheiro, outras prioridades em jogo. Roger cursava medicina na capital pernambucana, Morgana morava em Fortaleza. Eram bons amigos até o dia em que ele adia a volta ao Recife para se despedir, hm!, tem coisa aí.

Foram dois longos, beirando o interminável, anos. Ela virou freguesa das poltronas reclináveis, rotina sair de Fortaleza nas sextas para, no domingo, já estar cruzando a estrada novamente.
Voltar para casa, nessas horas, era tarefa amarga que nem jiló. O caminho inverso de quem queria mesmo era estar nos braços do xodó, mas precisava encarar a distância.
“Vivemos um amor de estudante, a gente era tão sem dinheiro que eu olhava para o leito e pensava: podia ser eu, pena que não tenho esse dinheiro porque sou estagiária”.
Mas, apesar da peleja, o cansaço era detalhe perto da urgência do tête-à-tête. Teve vez de Morgana cruzar a divisa dos estados para passar menos de 24 horas com Roger, só para não deixar uma discussão azedar por videochamada.
“Se não tivesse essa facilidade da passagem rápida, a gente não tinha se resolvido”.
O ano é 2026, a realidade é outra. Para eles, pelo menos. Dividem vida, boleto, endereço.
A rodoviária agora é apenas cenário de passagem, não mais de despedida. Mas o mundo lá fora não parou de girar e, embora a gente consiga se ver em alta definição, o Brasil não encolheu um centímetro sequer.
Entre um emoji, uma figurinha, um meme e uma música que parece adivinhar o que se sente, milhares de casais ainda vivem a contagem regressiva, o frio da barriga do reencontro.
O Wi-Fi e os aplicativos são uma mão na roda, não se pode negar. Entretanto, retorno também eu ao ponto de partida: nada nos conecta tanto quanto o toque, a presença. O combustível dos amantes. Do amor.

