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Recife

Combustível do amor

Namoro à distância dá muita saudade, e é ainda a realidade de muitos brasileiros.
Imagens: Acervo Pessoal
Tempo de leitura: 4 minutos
Saudade, dizem, é palavra que só existe por essas bandas, só percorre a nossa língua. O mundo inteiro sente parecido, mas fomos nós quem melhor soubemos traduzir. Matar matar ela não mata, não, mas castiga. 

É considerada a inimiga de muitos relacionamentos. Há um tempo, era pior. Com a tecnologia, foi ficando mais fácil e barato despistá-la: ouve-se voz, vê-se a imagem, alivia que é uma beleza, embora nada supere o abraço, a mão na nuca, o beijo na boca, o cheiro no cangote. O toque, esse sim, o combustível dos amantes.

O ano era 2022 e Alanzim Coreano, que de coreano só tem o apelido,  nascido e criado em Cascavel-CE, lançou aquele que seria o novo hino do Brasil.

De um Brasil que sente saudade, essa coisa maior, tão maior que a falta, e diz dela, canta, berra, para quem quiser ouvir. 

A essa altura, você talvez já saiba, caro viajante, que o hino em questão é “Pega o Guanabara”, até porque Evidências é de Chitãozinho e Xororó e parte de outra premissa.

Até porque “se afastar e defender” jamais, em hipótese alguma, seria cogitado pelo sujeito saudoso. Seus verbos são outros. Até porque é bem possível que você também tenha passado por algo parecido, ou conheça alguém que…

É aqui, exatamente aqui, que entra o casal Roger e Morgana. Casados no ano passado, depois de longa temporada de idas e vindas - no sentido literal/geográfico -, eles representam a legião de corações partidos, um  pedacinho em cada canto do mapa, que se viu traduzida pela música cujo refrão, fato curioso, por muito pouco não foi “pega o buzão e vem”.
 
“Namoro à distância dá muita saudade
Se tu me ama muda de cidade

Prova que me ama, arruma as mala e vem simbora

Pega o Guanabara e vem
Pega o Guanabara e vem”.



Ah, se fosse simples assim! Arrumar a mala, ir-se embora, ir simbora, e dar cabo da saudade de uma vez por todas. Mudar de cidade demorou a ser possibilidade. 

Normalmente custa mesmo, tempo, dinheiro, outras prioridades em jogo. Roger cursava medicina na capital pernambucana, Morgana morava em Fortaleza. Eram bons amigos até o dia em que ele adia a volta ao Recife para se despedir, hm!, tem coisa aí.
 

O primeiro beijo acontece nesse dia em que, repito, ele adia a volta, mas não pode - ninguém pode, afinal - com o inadiável: o encontro. 

Foram dois longos, beirando o interminável, anos. Ela virou freguesa das poltronas reclináveis, rotina sair de Fortaleza nas sextas para, no domingo, já estar cruzando a estrada novamente. 

Voltar para casa, nessas horas, era tarefa amarga que nem jiló. O caminho inverso de quem queria mesmo era estar nos braços do xodó, mas precisava encarar a distância.
 

“Vivemos um amor de estudante, a gente era tão sem dinheiro que eu olhava para o leito e pensava: podia ser eu, pena que não tenho esse dinheiro porque sou estagiária”.

Mas, apesar da peleja, o cansaço era detalhe perto da urgência do tête-à-tête. Teve vez de Morgana cruzar a divisa dos estados para passar menos de 24 horas com Roger, só para não deixar uma discussão azedar por videochamada.
 

“Se não tivesse essa facilidade da passagem rápida, a gente não tinha se resolvido”.

O ano é 2026, a realidade é outra. Para eles, pelo menos. Dividem vida, boleto, endereço.

A rodoviária agora é apenas cenário de passagem, não mais de despedida. Mas o mundo lá fora não parou de girar e, embora a gente consiga se ver em alta definição, o Brasil não encolheu um centímetro sequer.

Entre um emoji, uma figurinha, um meme e uma música que parece adivinhar o que se sente, milhares de casais ainda vivem a contagem regressiva, o frio da barriga do reencontro.

O Wi-Fi e os aplicativos são uma mão na roda, não se pode negar. Entretanto, retorno também eu ao ponto de partida: nada nos conecta tanto quanto o toque, a presença. O combustível dos amantes. Do amor.
 

Lara Rovere
Lara Rovere nasceu em Fortaleza, a partir do encontro de um gaúcho com uma piauiense. Na escola, escrevia cartas para os namorados das amigas. Hoje, depois de formar-se em Design de Moda e Jornalismo, costura palavras celebrando casamentos e outros ritos de passagem e conexão. Como editora da Bon Voyage, volta a flertar com as revistas, universo pelo qual sempre foi apaixonada (e que foi, também, sua primeira casa). 
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