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Água Preta, Pernambuco

A usina que o Brasil ainda não viu

Meu esforço não é fabricar uma narrativa, é fazer o nordestino se reconhecer na grandeza que já existe na sua própria história.
Imagens: Divulgação
Tempo de leitura: 2 min e 20 segundos
​Percorri mais de 100 países. Vi jardins botânicos com obras a céu aberto no sul da França que são referência mundial.

Entrei em lugares no Japão e na África que ficam na memória para sempre. Conheço bem o que o mundo produz de extraordinário em arte, arquitetura e experiência cultural.

Foi num canavial da Mata Sul de Pernambuco que esse olhar encontrou o que talvez seja o projeto mais improvável e mais potente do Brasil contemporâneo.

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A Usina Santa Terezinha funcionou durante décadas como uma das maiores usinas de cana-de-açúcar do país. Quando parou, deixou para trás a estrutura industrial, uma comunidade inteira e o peso silencioso de tudo que ali foi construído e destruído.

O que aconteceu depois não tem paralelo simples no Brasil.

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Hoje, num parque de 44 hectares, Juliana Notari cravou numa encosta de terra vermelha uma escultura de 33 metros em forma de vulva, concreto e resina, camadas que vão do vermelho ao rosa.
 

Diva existe pra provocar desconforto com o que deveria ser óbvio: o corpo feminino como paisagem, não como tabu. Marina Abramović ergueu um muro de 25 metros com cristais de quartzo rosa para o visitante encostar o corpo, uma experiência que não se descreve, se vive.

Primeira instalação ao ar livre da artista no Brasil, num canavial de Pernambuco.

Dirão que é o Inhotim do Nordeste. Inhotim é um dos projetos culturais mais extraordinários que o Brasil já produziu, e que bom que continue sendo fonte de inspiração. Mas a comparação para no portão de entrada.

Inhotim foi construído do zero numa fazenda de Minas Gerais. A Usina de Arte nasceu dentro de uma usina real, a maior produtora de açúcar e álcool do Brasil nos anos 1950, com toda a memória industrial que isso carrega.
 
“Instalação de Marina Abramović propõe uma experiência sensorial e tátil.”

Os galpões de ferro, as estruturas centenárias, as marcas do que ali funcionou durante décadas são parte da obra, não apenas seu suporte. A comunidade que viveu em torno da usina continuou lá, e foi incorporada ao projeto.
 

 
Artistas locais que começaram dando apoio nas obras dos grandes nomes hoje têm ateliês próprios. Criar artistas onde eles já estão, em vez de importar repertório de fora, é o que diferencia um projeto cultural de um parque temático.

Quando entrei naquele território, vim de um percurso por países onde o luxo é construído do zero, onde a identidade é fabricada porque não havia nada antes.

Dubai precisou de um esforço megalomaníaco pra chamar atenção do mundo. O Nordeste tem uma bagagem centenária, autoral, forjada pela necessidade e pela criatividade que nasce quando não há outra saída.A Usina de Arte é a prova mais concreta disso.
 

O mundo está começando a descobrir isso. O brasileiro deveria ter chegado antes.

É esse propósito que move meu trabalho: posicionar o Nordeste como um dos territórios mais autênticos do mundo.

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Meu esforço não é fabricar uma narrativa, é fazer o nordestino se reconhecer na grandeza que já existe na sua própria história.

 

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Pablo Guterres
Pablo Guterres é pesquisador, curador e CEO do Grupo DNX. @pabloguterres

 
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