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Na fila da inovação, a vez do Ceará

Quem atravessa seca aprende rapidamente que ninguém vence sozinho.
Imagens: Viktor Braga/UFC
Tempo de leitura: 5 minutos
Rachel de Queiroz escreveu certa vez que a gente não nasce sabendo viver, mas vai aprendendo. Talvez o Ceará tenha aprendido cedo demais. A viver. A resolver. A continuar.
 

Entre secas, partidas, travessias e reinvenções constantes, nosso povo desenvolveu uma habilidade rara de transformar dificuldade em movimento.

Há lugares onde a inovação nasce do excesso. Aqui, muitas vezes, ela nasce da necessidade de seguir em frente.

Quando chegou a nossa hora na fila da inovação, não fomos chamados ao palco. Fomos chamados, urgentemente, à ação. 

Era pandemia. O mundo inteiro ainda tentava entender o tamanho da tragédia enquanto hospitais lotavam, corredores silenciavam e respirar se tornava algo incerto.

E o Ceará não entrou nessa fila para apresentar ao mundo uma solução importada, dessas embaladas em inglês, patenteadas longe daqui e vendidas como se toda resposta precisasse vir de fora. 

Entrou porque alguém precisava fazer alguma coisa. E nós fizemos.

Em terra de A Cabeça do Santo, que abriga promessas de fé, escrevemos também a história de um capacete transparente feito de plástico, armadura guardadora de tanto. Ar, tempo, esperança…

Enquanto o país contabilizava diariamente suas perdas, o Elmo diminuía essa conta. Não salvaria todos. Nenhuma tecnologia salvaria. Mas ajudou milhares de pessoas quando o mínimo - respirar - havia se tornado um privilégio.

Quem fez isso? Uma rede.

Não das de dormir, embora também saibamos muito sobre elas. Uma rede de gente. Universidade pública, universidade privada, indústria local, médicos, fisioterapeutas, pesquisadores, profissionais da saúde, técnicos, lideranças e anônimos. Pessoas dispostas a tentar antes mesmo de ter certeza. 

Se de um lado faltavam materiais, do outro, sobrava improviso. Uma indústria dizia: “vem fazer aqui, a gente limpa a sala”.

Um ajustava o molde, outro refazia a peça. Outro testava novamente. E assim, quase sem perceber, um estado inteiro respirou, suspirou, aliviado. Junto. 

Sem espetáculo ou excesso, porque inovação mesmo, de verdade, não é a invenção mais inédita, mirabolante ou sofisticada. É a que funciona. A que chega a tempo. A que encontra gente disposta a construir enquanto o problema ainda está acontecendo. 

Acho que o Nordeste compreendeu isso cedo porque sobreviver por essas nossas bandas sempre exigiu criatividade prática.

Quem atravessa seca aprende rapidamente que ninguém vence sozinho.

Aprende a improvisar sem romantizar escassez. Aprende a transformar limitação em tração, motor. Qualquer coisa que move, tira da inércia, mesmo diante do cenário mais paralisante. 

Anos depois, uma pesquisadora alemã perguntaria: “como vocês conseguiram fazer isso lá?”

Eles estavam impressionados. Nós talvez estivéssemos apenas ocupados demais tentando salvar vidas com o que tínhamos: pouco, muito pouco.

Mas existe um tipo de inteligência que surge da (e na) travessia, no meio dela. Uma inteligência que não espera todas as condições ideais para começar. Apenas começa.

Foi assim que um capacete de plástico desenvolvido no Ceará se transformou em uma das maiores respostas brasileiras à pandemia. 

Parafraseando mais uma vez Rachel, a gente não nasceu sabendo inovar. A gente só foi inovando e, quando percebeu, aquilo já tinha virado marca.

Talvez a maior marca coletiva que este Estado já produziu: a capacidade de reunir pessoas em torno da vida. Uma ruma de gente caçando um novo rumo.

O Elmo acabou se tornando maior do que um equipamento hospitalar. Virou símbolo de uma inteligência coletiva que dificilmente caberia inteira em uma patente, em um laboratório ou em um discurso técnico.

Existe algo bonito em escrever sobre isso em uma revista de viagem, porque toda viagem fala sobre travessia.

Sobre seguir apesar do medo, sobre encontrar caminho mesmo quando ele ainda não está totalmente desenhado.

Durante a pandemia, enquanto milhares de pessoas cruzavam estradas tentando voltar para casa, profissionais da saúde atravessavam corredores de hospitais tentando devolver o ar a desconhecidos.

Em algum ponto desse caminho, uma inovação simples virou ponte entre ciência, sobrevivência e esperança.

É por essas e outras, sobretudo por essa, que eu acredito tanto no potencial do nosso estado e das nossas pessoas.

O Ceará não inovou apesar das dificuldades. Em muitos momentos, inovou porque aprendeu cedo demais que esperar nem sempre é uma opção.Às vezes, é travessia. É caminho. É viagem.E, quem sabe, toda boa viagem seja assim: primeiro vivida. Só depois contada.
Carol Matos
Carol Matos é Advogada especialista em Propriedade Intelec tual (PI) e Gestão da Inovação, com 9 anos de experiência publico-privada. Sócia da Danske Marcas e Patentes e ex-servidora pública federal, foi Gestora da UFC Inova (2019 2023), liderando, naquele período, mais de 400 ativos de PI e projetos de sucesso em transferência de tecnologia, como o Capacete Elmo. @carolinamatos
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