Preloader
Conversa fiada

Notas sobre a saudade

Um lugar para costurar ideias e sentimentos, ir puxando cada vez mais o fio da prosa, sem ver a hora passar. Feito cadeira na calçada, sabe?
Por Lara Rovere
Imagens: Gustavo Minas
Tempo de leitura: 7 minutos
Quando você percebeu que sentia saudade pela primeira vez?

Pedro Barros Fonseca - Saí do Recife rumo a Vitória, no Espírito Santo, em 2004. O que seria um trabalho pontual de quinze dias se transformou em dois anos. 

Havia levado uma pequena bagagem de mão – e com ela fiquei durante todo esse tempo. No Recife deixei um grande amor – e vi ele indo embora.

Só que distância é um bicho danado para alimentar saudade. Então a cada mês eu pensava mais, eu sentia mais, eu queria mais aquele grande amor, ainda que não tivesse (nem desse) notícia alguma.

O silêncio é um alpiste para esse pássaro de gaiola.

E justo quando completei dois anos fora, a uma semana do carnaval, chamei minha chefe na varanda do escritório e disse a ela num gole só de coragem: eu vou embora pro Recife, porque preciso reencontrar meu grande amor, antes que ele esqueça que existo. Ela nem conseguiu brigar comigo e disse vá. E fui.

Cheguei num domingo e fui direto para o Recife Antigo, onde os blocos de frevo de rua estariam certamente juntando quem é de bem. E uma voz me dizia vai, outra voz cantava vai. No instante em que cheguei e olhei com espanto para a multidão, meus olhos desacreditaram.

Lua estava ali no meio do furdunço. Larguei meu queijo coalho na mão do meu amigo Maia e disse que voltava logo. 

Corri, a alcancei, peguei seu telefone e dei o meu, era fevereiro e em julho casamos. Naquela noite, quando senti o cheiro dela de novo, aquele cheiro de carnaval no meio peito, entendi o que era saudade.
 

Nunca mais falei com minha ex-chefe, nunca mais vi Maia. Lua e eu estamos casados há 20 anos.
 

Qual a versão sua só existe em Recife?
 
Pedro - Ali pelos 15 anos, descobri minha turma. Eles estavam sempre no palco – e eu, embaixo. Mas sou tão persistente, tão ranhento quando quero muito alguma coisa, tenho tanta vontade de estar com as pessoas, que aprendi a tocar um instrumento, aprendi a cantar, entrei para a banda da escola. 

Foram três anos mágicos e mal sabia eu que eram apenas o início de uma transformação em mim. Saímos daquela escola e decidimos seguir juntos, como banda. 

Haviam muitos nomes bons, mas escolhemos o pior deles: Habagaceira. Sei que vai ser difícil acreditar, mas o som era bom, apesar do nome. Tocamos muito. 

Recife, Salvador, Aracaju, Natal, Maceió, Fortaleza. Foram muitos anos juntos, até que fui embora do país e deixei meu posto vago. Os meus amigos encontram não apenas um, mas vários outros vocalistas, seguiram em frente, tocaram a vida. E em algum momento, nos abraçamos de novo, escolhemos voltar a tocar juntos. 

Ao todo, foram 35 anos assim. No ano passado, decidi que seria meu último show. Fui ao Recife, juntamos mil e poucas pessoas nessa despedida linda – onde até meu filho mais velho subiu ao palco para tocar. Mas aí já é outra história.

 
Volteeeei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço. Quantas vezes essa danada te puxou, hein?

Fiz as pazes com Recife há pouco tempo, pós-pandemia. Depois de sair de lá e me aventurar em tanto mundo, criei uma barreira protetiva, intuitiva. Porque gostar do Recife e estar longe seria tão doloroso quanto não ter nascido lá. E fui nutrindo uma espécie de ranço seletivo. 

Dizia o quanto odiava o trânsito. Dizia o quanto me incomodava a destruição dos mangues. Dizia até que haviam carnavais melhores. Tudo mentira, tudo inventado para me acomodar na lonjura. 

Só que depois da pandemia e da outra doença mortal que acometeu o país, percebi os afetos entrando de volta pelos meus poros. E o Recife estava nesse lote de vacinas contra a desesperança. 

Cheguei lá no início de 2022 e sorri no trânsito, elogiei a preservação dos manguezais, chorei no carnaval. E desde então, não abro mão. Todo ano estou lá. Na chuva ou no mormaço.
 
O que te teletransporta imediatamente pra lá?

Pedro - Música. E poderia aqui fabular uma resposta outra, mas sou adulto e preciso bancar as minhas verdades. Música. É o instrumento de vínculo mais poderoso com minha terra.
 
Que gosto a saudade tem? Onde ela mora, do que se alimenta?
 

A saudade é insípida e se alimenta de gente.

Entendo as belas perguntas sobre o Recife e essa saudade escrita e musicada, especialmente numa terra onde as palavras e canções nasciam das penas de Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Capiba, Luna Vitrolira, Lenine, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho, Flaira Ferro, Adelaide Ivanova e mais uma infinita lista de escribas de luxo. 

Por outro lado, penso que toda saudade que se alimenta de mim quer me arrancar outras existências da memória – e não deixo, não deixarei. Não podemos deixar a saudade nos engolir, só morder, para a gente se mexer e escapar.
 

 
Algum ritual secreto para conviver com a falta de um lugar (que, normalmente, é também das pessoas que ficaram nele)?

Pedro -  Viu? Você mesma acaba de trazer esse desencontro fatal. Saudade das pessoas de um lugar. 

Sabe o que temos feito aqui em casa? Rituais de comer, ouvir e cantar o chão onde pisamos primeiro. Um cozido pernambucano mata a saudade. Uma história de infância mata a saudade. Uma música nova de Amaro Freitas mata a saudade. 

Eu sei, depois ela volta, ressurge das quartas-feiras de cinzas. E aí a gente canta mais uma música, conta mais uma história, come outra lembrança. E a espanta novamente.
 
Dividir a saudade, experimentando esse sentimento junto com outra pessoa, diminui ou aumenta a saudade?

Pedro - Partilho uma experiência em tempo real. Li a pergunta, comecei a escrever, apaguei, escrevi, apaguei. Algumas vezes isso, esse arrependimento que precede a conclusão honesta: não sei. 

O que sei é que a saudade partilhada se distrai, fica sem saber nos atacar. E a saudade em solidão, me ajuda, Alceu, é fera, devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo. Eu não sei. 

Penso que talvez seja esse o desafio de sentir e viver uma saudade. Não saber como se desfazer dela. E se é mesmo possível. Deve haver uma beleza nisso, em alguns lugares dessa relação.
 
Saudade só dói ou é possível aprender com ela? Se sim, o quê?
 

Quem fala que existe saudade boa não está sentindo saudade. Está só esperando. 

Saudade de verdade é poeira nos olhos que não nos deixa ver luzes nos fins de túneis. Saudade raiz é macaxeira. Saudade grande é baobá cravado no coração da gente. Saudade oficial é saber os nomes das ruas de cor. Saudade que se preza dá tontura, enjoo e sede – de viver. Saudade ensina a gente que nem tudo é para a gente aprender. 

Sofrer, por exemplo, a gente já nasce ensinado. Só precisa viver para ter certeza que está mesmo sofrendo. De saudade.
 

Pedro Fonseca Barros (@peubfonseca), o Peu da Lua, da Irene, do João, da Teresa e do Joaquim, fundador do projeto Sala de Alma, Sócio da Rede Amparo e podcaster no “Dilemas”, faz o Enzo, codinome que dá a quem compartilha seus impasses no podcast, “fiou” com a gente uma conversa sobre saudade.

Ele, que é também escriba, além de gente finíssima, elegante e sincera, nasceu em Recife, debandou do Recife, ficou de mal do Recife e fez as pazes com o Recife, enfim, viveu todas as fases, estreia a seção falando mais sobre esse bichinho que o mordeu tem tempo, mas que segue coçando e doendo.
Lara Rovere
Lara Rovere nasceu em Fortaleza, a partir do encontro de um gaúcho com uma piauiense. Na escola, escrevia cartas para os namorados das amigas. Hoje, depois de formar-se em Design de Moda e Jornalismo, costura palavras celebrando casamentos e outros ritos de passagem e conexão. Como editora da Bon Voyage, volta a flertar com as revistas, universo pelo qual sempre foi apaixonada (e que foi, também, sua primeira casa).
Ler próxima matéria