QUE TAL CURTIR UM SOM ENQUANTO LÊ A MATÉRIA?
Às vésperas do São João, o maior palco da música Nordestina, fomos atrás de alguém que manja, e muito, do assunto, com de tudo o que ele abrange/mobiliza: tendência, negócio, cultura, memória.
Foi aí que encontramos o Zé Pretim - na certidão, Darlison. Uma figura interessantíssima cuja origem está nas “quebrada”, mais especificamente no bairro Pirambu, em Fortaleza, onde dançava quadrilha na rua, soltava bomba e, direto da barraca de sua saudosa madrinha, comia pratinho.
Hoje, ele orgulha, ou no mínimo surpreende, esse moleque arteiro lidando com coisas megalomaníacas, como os festejos juninos de Campina Grande e Caruaru.
Pretim, que teve ainda a graça de acompanhar o nascimento de fenômenos como ninguém mais, ninguém menos, que João Gomes, acredita que vivemos um momento de flashback do amor pelo Ceará, movimento impulsionado pelo Cine Holliúdy e por outros marcos importantes.“Não quero entrar nessa disputa de se é melhor Carnaval ou São João, mas é importante a gente dizer: Carnaval é um fenômeno de uma semana. São cinco dias versus um mês inteiro. O movimento de pessoas é muito maior, a atenção é muito maior”.
Ver protagonistas cearenses em tela grande, sem neutralizar ou se acanhar do próprio sotaque, também protagonista, fortaleceu a nossa autoestima.
Como se a gente, da última década pra cá, enfim atentasse pro fato de que, dentro desse Brasilzão com s, tem também um Nordeste com N, onde estão nove estados e 1.794 cidades, dentre as quais uma efervescente Fortaleza com F.
A mesma letra com que se escreve forró, esse estilo tão democrático e tão nosso que ele definiu como “megazord cultural” e que também foi pauta dos “bem mais que dois dedos de prosa” que você confere a seguir.

Zé Pretim: Eu não tenho como falar de mim sem falar de onde eu vim, certo? Lá do Pirambu.E, bom, eu sou designer de formação.
Fiz muita coisa, entreguei muito projeto, mas teve um momento em que fiquei meio "de saco cheio" de ficar atrás da tela.VFui do design gráfico para o visual, aplicativo, marketing digital, até que fui parar no Sua Música.
Entrei como diretor de conteúdo nessa que é uma plataforma brasileira com foco muito grande no Nordeste.
O projeto surgiu a partir de um programador forrozeiro - sim, eles existem! - que pegava as discografias lá na comunidade do Orkut e reunia tudo num site.
O site foi vendido para um grupo que o transformou no app e no negócio que é hoje. Ele nasceu do chamamento da comunidade que curte forró.
Foi a partir disso que entrei com os dois pés na música em si. Eu sempre trabalhei com projetos culturais e entretenimento, mas não com o business. Cheguei na empresa desde 2019 e prosperamos bastante.
BV: Tu acredita que existe essa música "nossa", enquanto pessoa, cidade e região, ou que as fronteiras estão mais borradas?
ZP: Eu acho "fifty-fifty" ou, traduzindo pro cearês: mêi a mêi. Apesar das fronteiras estarem borradas, ainda existe o que é do Nordeste, do Sul, do Norte. Eu faço muitas analogias com a alimentação.
Em Fortaleza, se a gente quiser, come comida tailandesa, paraense ou regional. A gente tem o acesso, mas o "sabor" é o diferencial.

Outro dia, em uma reunião de pesquisa para uma IA, eu falei: "Existem coisas no Nordeste que são míopes para quem não é daqui". Exemplifiquei com o termo "pirangueiro". No Ceará, é maloqueiro; em Pernambuco, é caloteiro; na Bahia, é mão de vaca. Com a música acontece o mesmo.
Existe a música nossa e, dentro do Nordeste, existem as microrregiões. O Arrocha, por exemplo, é um fenômeno com concentração de consumo num raio entre Salvador, Vitória e Aracajú. Ele se expande, o Sudeste escuta Nattan, mas a forma de consumo raiz é lá.
O mesmo com o Brega Funk no Recife ou o Tecnobrega no Pará. As pessoas têm acesso, mas não é o que elas consomem corriqueiramente.
O jeito que o Sudeste consome Rock é diferente de como o Nordeste consome Forró. Ainda há essa separação geográfica e de gênero.
BV: E tu acha que estamos vivendo um momento de maior autoestima? O nordestino e o cearense estão se apropriando mais do que é feito aqui, pelas pessoas daqui?

O Halder Gomes tem um papel muito grande nesse flashback do amor que a gente sente pelo Ceará e por Fortaleza. Foi a hora que a gente olhou e: "uou, isso aqui é nosso!". E o nosso é muito legal. O nosso sotaque é muito legal. A nossa estética é muito legal. O nosso forró é muito legal.
Porque o forró também, até aquele ponto ali, estava nichado só com os forrozeiros. Hoje não. Hoje, quando a gente dá uma volta em Fortaleza, você vê casas e restaurantes chiques tocando forró.Estive, recentemente, num festival que teve Gaby Amarantos, eu estava chegando e a DJ tocando Aviões Volume 3 em São Paulo, no Parque Villa-Lobos. Depois ela tocou Magníficos. Eu fiquei espantado, de um jeito bom, claro.
Eu acho que, falando de Fortaleza, para mim o marco histórico, o ponto chave, é o Cine Holliúdy. A gente está falando de quase dez anos atrás.
Existem outros marcadores em outras regiões, de outros gêneros, mas acredito que foi o momento que a gente começou a reconstruir essa autoestima e que isso reverbera hoje nesse Brasil com "S".
O forró fez isso: "a gente é muito foda no forró". O samba fez isso: "o samba é muito foda". As religiões de matrizes africanas fizeram isso. Eu acho que todo mundo está bebendo dessa parada de que o que gente faz é muito incrível, sabe? E o forró se apropria desse gênero que sempre foi muito autossuficiente, diferente de outros gêneros.A partir desse Brasil com "S", passamos a colocar Nordeste com "N", Ceará com "C", Fortaleza com "F", Recife com "R", Salvador com "S". É a gente olhando pro que é da gente e reconhecendo como algo muito foda.
Ele sobreviveu e pega esse ecossistema que volta a consumi-lo e validá-lo junto com uma indústria que se fortaleceu com essa escassez. O forró vira realmente o gênero do Brasil - nesse primeiro momento, o gênero do Nordeste.
Ele faz um movimento de contracultura, porque antes a gente achava que o sertanejo era a única música nacional, e o forró consegue engolir tudo a partir da região mais forte dele, sem a necessidade dos artistas saírem do Nordeste.
O forró já redesenhou como funcionam os negócios da música brasileira por pelo menos três vezes. Muitos artistas fizeram o movimento de vir para o Sudeste e já voltaram. O Xand Avião, por exemplo, nunca saiu de Fortaleza e é sucesso nacional.
O Wesley veio para São Paulo umas duas, três vezes, mas sempre volta. É muito louvável olhar para a estrutura de negócio desse gênero.
BV: Tu falou de bandas antigas e do Aviões Volume 3. Ao mesmo tempo que o “novo sempre vem”, existe esse fenômeno da nostalgia, né?
ZP: Exato. E o forró não passaria batido por isso. Culturalmente, estamos mais nostálgicos; vivemos um eterno TBT. Tem festa de R&B tocando só 2006, tem o resgate da MPB, muita gente curtindo músicas antigas de artistas como Gal Costa, Maria Bethânia, descobrindo gravações originais.
O próprio rap também voltando para o passado, talvez o trap é o único que continue sendo vanguarda.
O forró vira um "Megazord" cultural. Se as pessoas estão nostálgicas, vêm todos os componentes da época: a volta da seresta, do teclado, as bandas de piseiro tendo que colocar metais, zabumba e sanfona porque o público pede. Até a moda agora é vintage, usar gravata de brechó. O forró se apropria disso.
BV: Qual é o som que tu tem mais curtido atualmente?ZP: Todo mundo vai falar isso, mas eu literalmente sou a pessoa mais eclética que tu pode conhecer na tua vida.
Eu vim para cá ouvindo Nirvana, acordei ouvindo Nana Caymmi e acho que nesse momento o disco que eu estou mais ouvindo no repeat é o disco novo do Emicida, onde ele resgata a essência dele através do Racionais, das letras dos Racionais.
Mas eu já estou, inclusive saindo dessa entrevista com você aqui, para ir para a reunião de São João, então eu já estou mergulhando no São João, já estou consumindo ali meu Santanna “O Cantador”, meus Flávio José, minhas coisinhas para mergulhar nessa temática. Emicida, Racionais e Arthur Verocai são as três coisas que eu estou mais escutando esses dias.

ZP: Minha relação com o São João começa desde o dia que eu nasci, por ser cearense. Eu sou de 91, da época de quadrilha na rua.
Tinha uma avenida lá no Pirambu, ainda tem, que é a Nossa Senhora das Graças, que misturava a festa da igreja com quadrilha porque, afinal, São João é uma festa católica, é uma festa religiosa, a gente não pode esquecer disso.
Eu lembro da minha madrinha que botava banca para vender pratinho. Isso é uma memória muito afetiva.
Fico emocionado quando lembro da banquinha. Minha madrinha já faleceu, mas quando eu como um pratinho eu lembro dela, porque ela era o clássico do pratinho lá na minha favela, sentada colocando a banquinha de palha de coqueiro, bem bonitinha.
E aí eu tive essa bênção de, depois, o trabalho também promover esse encontro sob uma outra perspectiva.
Eu já tinha trabalhado com o São João antes de vir para o Sua Música, com ativação de marca, ainda como produtor. Mas, durante a pandemia, a gente desenvolveu um projeto proprietário chamado "São João de Todos" em que, em um ano, revelamos Tarcísio do Acordeon e, no outro, João Gomes.
Quando o mercado se reabriu para eventos, a gente começou a ser as transmissões oficiais. Então, a gente sempre faz transmissão de Campina Grande e de Caruaru também.
A gente costuma fazer 90 milhões de visualizações com as nossas transmissões. Campina Grande leva em média 100 mil pessoas por dia para a rua.
Caruaru tem entre 80 e 100 mil também todos os dias de festa. E hoje o negócio do forró e o negócio da música no Nordeste explodiu
Existem muitas pessoas que estão dando luz para estes festejos e dizendo: "isso aqui é muito massa e a gente precisa que vocês entendam que isso aqui é muito massa".
Hoje, quando eu transito em ambientes aqui em São Paulo, todo mundo ou já foi e conhece Campina Grande e Caruaru, ou diz assim: "todo mundo só fala nisso, eu preciso ir lá conhecer".
Estão no radar do país porque foi um movimento de contracultura mesmo.
Foi de, como diria Aviões do Forró, “se não valorizar, com certeza você vai me perder'". Então, nos autovalorizamos, nos autoprosperamos até que o Brasil em si veio olhar para o Nordeste e reconhecer.
Não quero entrar nessa disputa de se é melhor Carnaval ou São João, mas é importante a gente dizer: Carnaval é um fenômeno de uma semana. São cinco dias versus 30 dias de festejos. O movimento de pessoas é muito maior, a atenção é muito maior.É muito impactante quando você vê 100 mil pessoas num evento numa quarta-feira. Aí tu pensa: "ah, não, é porque essa quarta-feira é muito importante". Quinta está do mesmo jeito, sexta do mesmo jeito, domingo do mesmo jeito, faça chuva ou faça sol... por 30 dias.
BV: E sobre a live do João Gomes, tem algum bastidor para os nossos leitores?
ZP: Em 2020, quando vimos que não teria São João presencial, eu peguei o primeiro avião para Petrolina com uma mochila e um sonho para fazer uma live de piseiro.
No meio da transmissão, me pediram para colocar "mais um" artista. Eu estava com medo da audiência cair, mas aceitei. Chegou um cara só com a sanfona e teve que pegar músico emprestado para tocar: era o Tarcísio do Acordeon.
No ano seguinte, fizemos um concurso cultural no Twitter para descobrir uma nova voz. Um rapaz ficou em segundo lugar. Ele tinha 2.275 seguidores e esse rapaz é o João Gomes
O primeiro palco dele foi na nossa live em 2021. Às três da tarde, já tinha mil pessoas esperando no chat do YouTube gritando "Vim pelo João". Eu falei "hum, tem um negócio aí". E olha que tinha.No dia dele, tinha muitos artistas grandes e o João, um menino que tinha feito uns vídeos na internet. Ali, eu vi que ali havia um fenômeno. Tive a graça de acompanhar vários fenômenos assim, todo ano eu acompanho de perto pelo menos um.
BV: Olhando para frente, o que está no teu radar?
ZP: Este para mim vai ser um São João curioso. Como trabalho no negócio da música, tenho informações antecipadas e tem dois anos que não tem "a" música do São João.
Fica todo mundo nessa expectativa, mas não tem, porque faz dois anos que a gente está nostálgico.
O Xand Avião quebrou a banca, pegou todo mundo, como a gente diz aqui no Ceará, de "calça arriada" com o projeto Forró é Pop. No ano seguinte, o Safadão fez algo semelhante com o Bem-vindo ao meu mundo, que explodiu e pautou o São João com um sentimento nostálgico em cima de vaquejada.
Tivemos dois anos de nostalgia raiz. Agora, estou botando minhas fichas num TBT mais recente.
Ainda é resgate, o novo, na verdade, é o velho com um molhinho novo. Um sentimento de "Cantinho do Céu", de "Forró no Sítio". Tendo a achar que vai ser mais um São João nostálgico, mas de 2010 para cá.
